Gente,
esta postagem é para avisar que este blog está de mudança... A partir de agora, passo a fazer parte do "cast" (eita palavrinha bonita...) dos Lablogatórios, um portal dedica a blogs sobre ciência. MInhas postagens futuras aparecerão em www.lablogatorios.com.br/cretinas. Não sei por quanto tempo vão de deixar ficar lá, mas vou tentar durar o máximo...
Pretende manter esta página do blogspot no ar, porque há vários links cruzados entre postagens antigas do blog e que remetem para cá (em mais de 140 postagens, não consegui localizar e redirecionar todos os links internos!) e porque talvez algums ostagens antigas não tenham sido bem exportadas (corolário do Halting Theorem de Turing: é impossível prever o que um computador vai fazer...).
Enfim, o ideiascretinas.blogspot continuará vivo, mas apenas como arquivo. As novidades, agora, serão no Lablogatório.
Espero vocês lá!
sábado, 16 de agosto de 2008
segunda-feira, 11 de agosto de 2008
8/8/8
O Fantástico de ontem à noite -- desculpe, até eu assisto uns pedaços desse negócio às vezes, principalmente quando os seriados da TV a cabo são todos repetidos demais -- cometeu uma peça de numerologia a respeito do dia 8/8/8 que merece ser analisada sob, ao menos, dois ângulos.
(Para quem não sabe como a superstição "funciona", vamos lá: os numerólogos atribuem a cada letra do alfabeto um número, geralmente seguindo o famoso "código secreto do pré-primário": A=1; B=2; C=3, e assim por diante. Aí, pegam nomes de pessoas, países, empresas, etc., traduzem-nos de acordo com o código e somam os algarismos obitidos entre si, até chegar a um só dígito. Esse resultado teria significado místico. Exemplo: Idéias Cretinas é 9+4+5+9+3+18+5+20+9+14+1+19. Agora, onde está acalculadora... ? Ah: 116, ou 1+1+6 = 2+6 = 8. Então "8" é o número místico deste blog. Pelo que falaram no Fantástico, trata-se do número da honestidade e da veracidade. Arrá!).
Bom, a "reportagem" da Globo mostrava algumas crianças nascidas em 8/8/8 com vários oitos em suas vidas -- o número do quarto em que as mães ficaram internadas (512, 5+1+2 = 8), a hora exata do nascimento (7h56 = 7+5+6=18) e assim por diante. Causa de espanto e admiração. Certo?
Nem tanto. Chegamos, agora, aos dois ângulos quem mencionei lá em cima.
O primeiro é o artificialismo das produções para televisão. Quem não trabalha com comunicação quase nunca se dá conta, mas toda reportagem para TV é produto de uma pré-produção exaustiva: antes de deslocar uma equipe composta de profissionais especialiazdos e equipamentos caríssimos para algum lugar, as empresas querem ter o máximo de certeza de que terão algo a apresentar ao final do processo.
Resumindo: tudo que você vê na TV geralmente é fruto de uma preparação que teve início, via telefone e internet, horas ou mesmo dias antes de o repórter ir a campo. Exceções, claro, são as coberturas (ao menos, as coberturas iniciais) de grandes desastres ou outros desenvolvimentos inesperados; mas essas, geralmente, começam com um cinegrafista amador, um vídeo de celular ou uma câmera de segurança.
Daí, as crianças cheias de oitos apresentadas na reportagem não foram simplesmente "encontradas": foram ativamente caçadas, procuradas e selecionadas. Com uma preparação assim, a lei dos grandes números sempre trabalha a favor do que se quer mostrar, por mais estapafúrdio que seja.
O segundo ângulo é que o fato de uma seqüência de números de um dígito se reduzir a "8", quando somada pelo sistema dos numerólogos é, de fato, bem grande.
Se a tabela que rabisquei no guardanapo do café da manhã estiver correta, há 45 maneiras de somar dois dígitos -- dois dígitos parece ser um bom caso-teste, já que toda seqüência numerológica, não importa o tamanho inicial, cedo ou tarde se reduz à soma de dois algarismos -- de forma que o resultado tenha apenas um dígito (desprezei o caso 0+0 = 0, já que não existe uma "letra zero" para os numerólogos, e os casos onde o zero seria o primeiro dígito, como 0+1, 0+2, etc).
Dessas 45 maneirias, 8, ou cerca de 17%, geram "8" como resultado. O único dígito com mais "modos de construção", por assim dizer, é o 9, com 9/45, ou 20%. O dígito 7 tem 15% e o 1, pobrezinho, com apenas um modo de formação (1+0), tem meros 2%.
Ou seja: o esforço de produção nem precisou ser tão esforçado assim, já que as coincidências de oitos estão entre as mais prováveis criadas pelo próprio método numerológico. Pode acreditar: é o que diz o blog da honestidade e veracidade, regido pelo número 8.
(Para quem não sabe como a superstição "funciona", vamos lá: os numerólogos atribuem a cada letra do alfabeto um número, geralmente seguindo o famoso "código secreto do pré-primário": A=1; B=2; C=3, e assim por diante. Aí, pegam nomes de pessoas, países, empresas, etc., traduzem-nos de acordo com o código e somam os algarismos obitidos entre si, até chegar a um só dígito. Esse resultado teria significado místico. Exemplo: Idéias Cretinas é 9+4+5+9+3+18+5+20+9+14+1+19. Agora, onde está acalculadora... ? Ah: 116, ou 1+1+6 = 2+6 = 8. Então "8" é o número místico deste blog. Pelo que falaram no Fantástico, trata-se do número da honestidade e da veracidade. Arrá!).
Bom, a "reportagem" da Globo mostrava algumas crianças nascidas em 8/8/8 com vários oitos em suas vidas -- o número do quarto em que as mães ficaram internadas (512, 5+1+2 = 8), a hora exata do nascimento (7h56 = 7+5+6=18) e assim por diante. Causa de espanto e admiração. Certo?
Nem tanto. Chegamos, agora, aos dois ângulos quem mencionei lá em cima.
O primeiro é o artificialismo das produções para televisão. Quem não trabalha com comunicação quase nunca se dá conta, mas toda reportagem para TV é produto de uma pré-produção exaustiva: antes de deslocar uma equipe composta de profissionais especialiazdos e equipamentos caríssimos para algum lugar, as empresas querem ter o máximo de certeza de que terão algo a apresentar ao final do processo.
Resumindo: tudo que você vê na TV geralmente é fruto de uma preparação que teve início, via telefone e internet, horas ou mesmo dias antes de o repórter ir a campo. Exceções, claro, são as coberturas (ao menos, as coberturas iniciais) de grandes desastres ou outros desenvolvimentos inesperados; mas essas, geralmente, começam com um cinegrafista amador, um vídeo de celular ou uma câmera de segurança.
Daí, as crianças cheias de oitos apresentadas na reportagem não foram simplesmente "encontradas": foram ativamente caçadas, procuradas e selecionadas. Com uma preparação assim, a lei dos grandes números sempre trabalha a favor do que se quer mostrar, por mais estapafúrdio que seja.
O segundo ângulo é que o fato de uma seqüência de números de um dígito se reduzir a "8", quando somada pelo sistema dos numerólogos é, de fato, bem grande.
Se a tabela que rabisquei no guardanapo do café da manhã estiver correta, há 45 maneiras de somar dois dígitos -- dois dígitos parece ser um bom caso-teste, já que toda seqüência numerológica, não importa o tamanho inicial, cedo ou tarde se reduz à soma de dois algarismos -- de forma que o resultado tenha apenas um dígito (desprezei o caso 0+0 = 0, já que não existe uma "letra zero" para os numerólogos, e os casos onde o zero seria o primeiro dígito, como 0+1, 0+2, etc).
Dessas 45 maneirias, 8, ou cerca de 17%, geram "8" como resultado. O único dígito com mais "modos de construção", por assim dizer, é o 9, com 9/45, ou 20%. O dígito 7 tem 15% e o 1, pobrezinho, com apenas um modo de formação (1+0), tem meros 2%.
Ou seja: o esforço de produção nem precisou ser tão esforçado assim, já que as coincidências de oitos estão entre as mais prováveis criadas pelo próprio método numerológico. Pode acreditar: é o que diz o blog da honestidade e veracidade, regido pelo número 8.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Intuições éticas e o habeas-corpus
Uma vez desmontada a falácia de que a ética (ou deontologia, pra quem preferir) depende de decreto do(s) deus(s)*, fica em aberto a qestão de do quê, exatamente, a ética depende. A sugestão mais plausível é que há uma certa "intuição para o bem" que a evolução dos primatas sociais criou, para impedir que a coesão necessária à sobrevivência do grupo acabasse destruída por ondas de roubo, estupro e assassinato.
Essa hipótese deixa em aberto, no entanto, quanto dessa intuição está nos genes (ou no "hard wiring", ou" cabeamento", do cérebro) e quanto é cultural; ainda que levando em consideração o alerta de ricahrd Dawkins contra levar dicotomias assim muito ao pé da letra -- cada um de nós é um pedaço de ambiente manipulado por genes manipulados pelo ambiente, e não dá pra desamarrar uma coisa da outra -- a questão não deixa de ser pertinente, bem como outra, correlata: quanto dessas intuições são realmente universais?
Problemas assim parecem feito sob medida para os filósofos experimentais, membros de um movimento que se vale das ferramentas da sociologia e da psicologia para tentar determinar quantas das "intuições óbvias" e "verdades auto-evidentes" invocadas no discurso filosófico realmente são uma coisa ou outra.
Uma descoberta interessante feita por um grupo de filósofos experimentais é a de que a maioria das pessoas tende a dosar o nível de culpa atribuído a alguém pelo quanto o, digamos, "réu" desejou o resultado do ato.
Essa aprece ser apenas avelha distinção entre "culposo" e "doloso", mas vai além: por exemplo, ao avaliar uma situação hipotética na qual um homem, sob os efeitos de uma fictícia droga da obediência, se vê forçado a matar outro, os voluntários da pesquisa consideraram-no responsável pelo ato e merecedor de culpa -- se a vítima fosse o amante da mulher do matador.
Ou seja, a intuição popular parece ser a de que se você quer alguma coisa e, mesmo involuntariamente, precipita os fatos de forma que ela acontece, você tem culpa.
Dá pra imaginar um monte de superstição (e anos de psicanálise) entrando por essa fresta inuitiva, mas ela talvez também ajude a explicar a indignação popular com os crimes de colarinho branco: se or um lado o corrupto/corruptir em princípio não é uma pessoa violenta e, portanto, não há pr que mantê-lo preso antes do processo chegar ao fim, por outro não há ato mais voluntário que o apropriar-se de dinheiro público: ninguém comete desfalques sem querer.
*Recapitulanado, para quem perdeu essa aula: os deuses nos mandam fazer as coisas que são boas porque elas são boas ou as coisas são boas só porque os deuses nos mandam fazê-las? Se a primeira alternativa é verdadeira, então existe uma intuição sobre o que é "bom" que independe de divindidades; se a outra, então ser bom equivale a ser puxa-saco.
Essa hipótese deixa em aberto, no entanto, quanto dessa intuição está nos genes (ou no "hard wiring", ou" cabeamento", do cérebro) e quanto é cultural; ainda que levando em consideração o alerta de ricahrd Dawkins contra levar dicotomias assim muito ao pé da letra -- cada um de nós é um pedaço de ambiente manipulado por genes manipulados pelo ambiente, e não dá pra desamarrar uma coisa da outra -- a questão não deixa de ser pertinente, bem como outra, correlata: quanto dessas intuições são realmente universais?
Problemas assim parecem feito sob medida para os filósofos experimentais, membros de um movimento que se vale das ferramentas da sociologia e da psicologia para tentar determinar quantas das "intuições óbvias" e "verdades auto-evidentes" invocadas no discurso filosófico realmente são uma coisa ou outra.
Uma descoberta interessante feita por um grupo de filósofos experimentais é a de que a maioria das pessoas tende a dosar o nível de culpa atribuído a alguém pelo quanto o, digamos, "réu" desejou o resultado do ato.
Essa aprece ser apenas avelha distinção entre "culposo" e "doloso", mas vai além: por exemplo, ao avaliar uma situação hipotética na qual um homem, sob os efeitos de uma fictícia droga da obediência, se vê forçado a matar outro, os voluntários da pesquisa consideraram-no responsável pelo ato e merecedor de culpa -- se a vítima fosse o amante da mulher do matador.
Ou seja, a intuição popular parece ser a de que se você quer alguma coisa e, mesmo involuntariamente, precipita os fatos de forma que ela acontece, você tem culpa.
Dá pra imaginar um monte de superstição (e anos de psicanálise) entrando por essa fresta inuitiva, mas ela talvez também ajude a explicar a indignação popular com os crimes de colarinho branco: se or um lado o corrupto/corruptir em princípio não é uma pessoa violenta e, portanto, não há pr que mantê-lo preso antes do processo chegar ao fim, por outro não há ato mais voluntário que o apropriar-se de dinheiro público: ninguém comete desfalques sem querer.
*Recapitulanado, para quem perdeu essa aula: os deuses nos mandam fazer as coisas que são boas porque elas são boas ou as coisas são boas só porque os deuses nos mandam fazê-las? Se a primeira alternativa é verdadeira, então existe uma intuição sobre o que é "bom" que independe de divindidades; se a outra, então ser bom equivale a ser puxa-saco.
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Imperialismo epistemológico
Ouvi a expressão do título desta postagem anos atrás, durante um debate sobre o valor da homeopatia. Ela estava, não surpreendentemente, na boca do homeopata, que argumentava que sua prática fracassava nos testes científicos simplesmente porque não era certo tentra impor os padrões da medicina "tradicional" à técnica "alternativa".
A idéia de que podem existir diferentes epistemologias -- isso é grego para "como separar crenças falsas de crenças verdadeiras e justificadas" -- é comum. Intuições epistêmicas, isto é, o conjunto de instintos que leva as pessoas a classificar algumas crenças como "conhecimento" e outras como "palpite", de fato variam entre culturas, e até de pessoa para pessoa.
O fato óbvio, no entanto, é que se duas pessoas (ou culturas, ou povos) têm opiniões opostas quanto à natureza epistêmica de uma mesma afirmação -- mesmo depois de controladas variáveis como sutilezas semânticas, flexibilidade interpretativa, contexto -- então pelo menos uma das duas está errada.
Como já bem notou o filósofo Paul Boghossian, toda alegação de conhecimento, não importa se seja feita por um astrofísico de Cambridge, pelo papa ou pelo grande xamã doz zulus (os zulus têm xamãs?), parte de três "elementos primitivos" comuns a toda a humanidade: observação, dedução, indução.
Mesmo um mulá que acredita que o Alcorão é a fonte suprema da Verdade se vale de observação (para ver o que está escrito) indução (para poder afirmar que a mesma sura não vai afirmar uma coisa diferente daqui a meia-hora) e dedução (para aplicar os princípios do livro de forma coerente ao mundo real).
Assim, a "epistemologia imperialista" do método científico é a mesma epistemologia primitiva comum a todo exemplar do animal humano, só que aplicada, sem restrições e de forma aberta, ao conjunto geral dos fenômenos do universo, e não a um único livro, às entranhas de um pássaro ou às "provas" de Hahnemann, o santo-padroeiro dos homeopatas.
A idéia de que podem existir diferentes epistemologias -- isso é grego para "como separar crenças falsas de crenças verdadeiras e justificadas" -- é comum. Intuições epistêmicas, isto é, o conjunto de instintos que leva as pessoas a classificar algumas crenças como "conhecimento" e outras como "palpite", de fato variam entre culturas, e até de pessoa para pessoa.
O fato óbvio, no entanto, é que se duas pessoas (ou culturas, ou povos) têm opiniões opostas quanto à natureza epistêmica de uma mesma afirmação -- mesmo depois de controladas variáveis como sutilezas semânticas, flexibilidade interpretativa, contexto -- então pelo menos uma das duas está errada.
Como já bem notou o filósofo Paul Boghossian, toda alegação de conhecimento, não importa se seja feita por um astrofísico de Cambridge, pelo papa ou pelo grande xamã doz zulus (os zulus têm xamãs?), parte de três "elementos primitivos" comuns a toda a humanidade: observação, dedução, indução.
Mesmo um mulá que acredita que o Alcorão é a fonte suprema da Verdade se vale de observação (para ver o que está escrito) indução (para poder afirmar que a mesma sura não vai afirmar uma coisa diferente daqui a meia-hora) e dedução (para aplicar os princípios do livro de forma coerente ao mundo real).
Assim, a "epistemologia imperialista" do método científico é a mesma epistemologia primitiva comum a todo exemplar do animal humano, só que aplicada, sem restrições e de forma aberta, ao conjunto geral dos fenômenos do universo, e não a um único livro, às entranhas de um pássaro ou às "provas" de Hahnemann, o santo-padroeiro dos homeopatas.
domingo, 3 de agosto de 2008
O mistério dos preços relativos
Certa vez li que uma das questões que economistas gostam de debater na mesa de bar é: por que o suco de laranja custa mais que a gasolina?
Reencontrei este paradoxo econômico recentemente, ao receber a newsletter da Annals of Improbable Research, revista publicada pelo mesmo grupo que concede o prêmio IgNobel, e que traz uma tabela com os preços de diversos líquidos consumidos pela civilização (detergente, xarope para tosse, etc) comprovando que a gasolina é um dos mais baratos.
Resolvi fazer um teste rápido aqui no Brasil, e bingo: enquanto o preço do litro de gasolina está por volta de R$ 2,50, um litro de Coca-Cola, no supermercado, sai por R$ 3,57 (preço de três latinhas de 350 ml). Detergente se sai melhor: a marca mais barata disponível no Pão-de-Açúcar sai por R$ 1,32 o litro, menos que a gasolina, mas ainda assim o preço médio de cinco marcas -- duas caras, duas baratas, uma de preço intermediário -- chega bem perto: cerca de R$ 2,40.
A comparação com o suco de laranja é uma covardia: a lata de concentrado não sai por menos de R$ 20 o litro. O suco pronto para baber, R$ 4.
Voltando à Coca-Cola, é possível fazer uma comparação entre o rendimento energético do refrigerante com o da gasolina. Um litro de Coca-Cola comum tem 411 calorias. Cada "caloria" alimentar corresponde a cerca de 4 mil joules, então são 1.644.000 joules ou 1,6 MJ. Já um litro de gasolina tem cerca de 45 MJ. Assim, ao comprar Coca-Cola você está pagando R$ 2,2x10E-6 por joule, ou dois milionésimos de real por unidade de energia. Ao comprar gasolina, você paga R$ 5,5x10E-8, ou pouco mais de um bilionésimo de real por unidade.
Olhando assim, parece até que dirigir é mais econômico que andar (ao menos, se sua fonte primária de calorias for Coca-Cola). A diferença é que você pode optar por não andar de automóvel. Mas decidir parar de comer é outra história.
Nada disso, porém, nos deixa mais perto de resolver o paradoxo dos preços relativos da Coca-Cola e da gasolina. Idéias?
Reencontrei este paradoxo econômico recentemente, ao receber a newsletter da Annals of Improbable Research, revista publicada pelo mesmo grupo que concede o prêmio IgNobel, e que traz uma tabela com os preços de diversos líquidos consumidos pela civilização (detergente, xarope para tosse, etc) comprovando que a gasolina é um dos mais baratos.
Resolvi fazer um teste rápido aqui no Brasil, e bingo: enquanto o preço do litro de gasolina está por volta de R$ 2,50, um litro de Coca-Cola, no supermercado, sai por R$ 3,57 (preço de três latinhas de 350 ml). Detergente se sai melhor: a marca mais barata disponível no Pão-de-Açúcar sai por R$ 1,32 o litro, menos que a gasolina, mas ainda assim o preço médio de cinco marcas -- duas caras, duas baratas, uma de preço intermediário -- chega bem perto: cerca de R$ 2,40.
A comparação com o suco de laranja é uma covardia: a lata de concentrado não sai por menos de R$ 20 o litro. O suco pronto para baber, R$ 4.
Voltando à Coca-Cola, é possível fazer uma comparação entre o rendimento energético do refrigerante com o da gasolina. Um litro de Coca-Cola comum tem 411 calorias. Cada "caloria" alimentar corresponde a cerca de 4 mil joules, então são 1.644.000 joules ou 1,6 MJ. Já um litro de gasolina tem cerca de 45 MJ. Assim, ao comprar Coca-Cola você está pagando R$ 2,2x10E-6 por joule, ou dois milionésimos de real por unidade de energia. Ao comprar gasolina, você paga R$ 5,5x10E-8, ou pouco mais de um bilionésimo de real por unidade.
Olhando assim, parece até que dirigir é mais econômico que andar (ao menos, se sua fonte primária de calorias for Coca-Cola). A diferença é que você pode optar por não andar de automóvel. Mas decidir parar de comer é outra história.
Nada disso, porém, nos deixa mais perto de resolver o paradoxo dos preços relativos da Coca-Cola e da gasolina. Idéias?
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Marjoe
Nos anos 70, um documentário, Marjoe, ganhor o Oscar mostrando como uma criança, Marjoe Gortner, foi transformada em um pastor evangélico por pais ambiciosos e como smesmos truques continuavam a funcionar, mesmo com a fraude exposta. O filme meio que caiu em esquecimento, mas há uma boa seeleção de trechos no YouTube (um deles abaixo).
Uma lição importante disso é ver como a mensagem tem de ser adaptada aos preconceitos e superstições prevalentes no público-alvo -- Marjoe falava a linguagem dos caipiras americanos ("Howdy, let's get de devil two black eyes!"). Isso provavelmente explica a adoção, no Brasil, de termos como "encosto" e "descrrego" por certos cultos.
Aqui, Marjoe explica como a coisa funciona:
Aqui, alguns excertos de sua carreira como menino prodígio do pentecostalismo:
Uma lição importante disso é ver como a mensagem tem de ser adaptada aos preconceitos e superstições prevalentes no público-alvo -- Marjoe falava a linguagem dos caipiras americanos ("Howdy, let's get de devil two black eyes!"). Isso provavelmente explica a adoção, no Brasil, de termos como "encosto" e "descrrego" por certos cultos.
Aqui, Marjoe explica como a coisa funciona:
Aqui, alguns excertos de sua carreira como menino prodígio do pentecostalismo:
domingo, 27 de julho de 2008
O verdadeiro valor da Mega Sena
Quando a Mega Sena acumula, o número de apostas sobe. Isso faz sentido: basicamente, mais pessoas passam a acreditar que a relação custo/benefício (no caso, o preço da aposta vesus o prêmio potencial) torna-se aceitável.
Intuições pessoais a parte, é possível calcular, com precisão matemática, o momento em que apostar na Mega Sena passa a ser um "bom negócio": isso ocorre quando o prêmio em jogo, multiplicado pela probabilidade de ganhar, supera o custo da aposta.
Na Mega Sena do último sábado, por exemplo, o prêmio acumulado era de R$ 52 milhões; o custo da aposta, R$ 1,25; a probabilidade de se fazer a sena, cerca de 1/50 milhões. Fazendo as contas, o preço justo de uma aposta seria R$ 1,03. Quem apostou pagou R$ 0,22 a mais do que a oportunidade valia.
Mais do que valia a oportunidade de se ganhar sozinho, aliás: e não há garantias de que isso venha a acontecer. O prêmio de sábado, por exemplo, foi dividido entre dois apostadores.
Existe, claro, achance de se fazer uma quadra ou uma quina, então talvez valesse a pena levar em conta esse dado ao calcular o preço justo da aposta. A quina do último sábado pagou R$ 18 mil, para uma probabilidade de 1/154 mil; a quadra, R$ 251, para uma probalididade de 1/2 mil. A sena, como foi dividida em dois apostadores, ficou em R$ 26 milhões.
Passando os números pelo moedor, o valor real de um bilhete da Mega Sena acumulada que correu no sábado é de (1/50 milhões)x(R$ 26 milhões)+(1/154 mil)x(R$ 18 mil)+(1/2 mil)x(R$ 251). Isso dá R$ 0,75, para um bilhete com seis dezenas do concurso 990 (se tentarem lhe vender um, não pague mais do que isso).
O prêmio justo que um apostador racional deveria esperar acumular antes de comprar um bilhete da Mega Sena - supondo que se vá ganhar a bolada sozinho - teria de ser da ordem de R$ 90 milhões.
Intuições pessoais a parte, é possível calcular, com precisão matemática, o momento em que apostar na Mega Sena passa a ser um "bom negócio": isso ocorre quando o prêmio em jogo, multiplicado pela probabilidade de ganhar, supera o custo da aposta.
Na Mega Sena do último sábado, por exemplo, o prêmio acumulado era de R$ 52 milhões; o custo da aposta, R$ 1,25; a probabilidade de se fazer a sena, cerca de 1/50 milhões. Fazendo as contas, o preço justo de uma aposta seria R$ 1,03. Quem apostou pagou R$ 0,22 a mais do que a oportunidade valia.
Mais do que valia a oportunidade de se ganhar sozinho, aliás: e não há garantias de que isso venha a acontecer. O prêmio de sábado, por exemplo, foi dividido entre dois apostadores.
Existe, claro, achance de se fazer uma quadra ou uma quina, então talvez valesse a pena levar em conta esse dado ao calcular o preço justo da aposta. A quina do último sábado pagou R$ 18 mil, para uma probabilidade de 1/154 mil; a quadra, R$ 251, para uma probalididade de 1/2 mil. A sena, como foi dividida em dois apostadores, ficou em R$ 26 milhões.
Passando os números pelo moedor, o valor real de um bilhete da Mega Sena acumulada que correu no sábado é de (1/50 milhões)x(R$ 26 milhões)+(1/154 mil)x(R$ 18 mil)+(1/2 mil)x(R$ 251). Isso dá R$ 0,75, para um bilhete com seis dezenas do concurso 990 (se tentarem lhe vender um, não pague mais do que isso).
O prêmio justo que um apostador racional deveria esperar acumular antes de comprar um bilhete da Mega Sena - supondo que se vá ganhar a bolada sozinho - teria de ser da ordem de R$ 90 milhões.
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