quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Intuições éticas e o habeas-corpus

Uma vez desmontada a falácia de que a ética (ou deontologia, pra quem preferir) depende de decreto do(s) deus(s)*, fica em aberto a qestão de do quê, exatamente, a ética depende. A sugestão mais plausível é que há uma certa "intuição para o bem" que a evolução dos primatas sociais criou, para impedir que a coesão necessária à sobrevivência do grupo acabasse destruída por ondas de roubo, estupro e assassinato.

Essa hipótese deixa em aberto, no entanto, quanto dessa intuição está nos genes (ou no "hard wiring", ou" cabeamento", do cérebro) e quanto é cultural; ainda que levando em consideração o alerta de ricahrd Dawkins contra levar dicotomias assim muito ao pé da letra -- cada um de nós é um pedaço de ambiente manipulado por genes manipulados pelo ambiente, e não dá pra desamarrar uma coisa da outra -- a questão não deixa de ser pertinente, bem como outra, correlata: quanto dessas intuições são realmente universais?

Problemas assim parecem feito sob medida para os filósofos experimentais, membros de um movimento que se vale das ferramentas da sociologia e da psicologia para tentar determinar quantas das "intuições óbvias" e "verdades auto-evidentes" invocadas no discurso filosófico realmente são uma coisa ou outra.

Uma descoberta interessante feita por um grupo de filósofos experimentais é a de que a maioria das pessoas tende a dosar o nível de culpa atribuído a alguém pelo quanto o, digamos, "réu" desejou o resultado do ato.

Essa aprece ser apenas avelha distinção entre "culposo" e "doloso", mas vai além: por exemplo, ao avaliar uma situação hipotética na qual um homem, sob os efeitos de uma fictícia droga da obediência, se vê forçado a matar outro, os voluntários da pesquisa consideraram-no responsável pelo ato e merecedor de culpa -- se a vítima fosse o amante da mulher do matador.

Ou seja, a intuição popular parece ser a de que se você quer alguma coisa e, mesmo involuntariamente, precipita os fatos de forma que ela acontece, você tem culpa.

Dá pra imaginar um monte de superstição (e anos de psicanálise) entrando por essa fresta inuitiva, mas ela talvez também ajude a explicar a indignação popular com os crimes de colarinho branco: se or um lado o corrupto/corruptir em princípio não é uma pessoa violenta e, portanto, não há pr que mantê-lo preso antes do processo chegar ao fim, por outro não há ato mais voluntário que o apropriar-se de dinheiro público: ninguém comete desfalques sem querer.


*Recapitulanado, para quem perdeu essa aula: os deuses nos mandam fazer as coisas que são boas porque elas são boas ou as coisas são boas só porque os deuses nos mandam fazê-las? Se a primeira alternativa é verdadeira, então existe uma intuição sobre o que é "bom" que independe de divindidades; se a outra, então ser bom equivale a ser puxa-saco.

0 comentários: