quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Questão jurídica

Alguém poderia me explicar por que a Justiça brasileira, principelmente em primeira instância, tende a tratar a liberdade de expressão como um direito de segunda categoria? Sentenças como a proibindo o jogo Counter Strike, várias decisões recentes mandando jornalistas calar a boca, iniciativas do Ministério Público contra RPGs... e a biografia não-autorizada do Roberto Carlos, claro... são os casos que em ocorrem agora.

Muitas vezes a explicação que vem é de que a liberdade de expressão não é um direito absoluto (o que deveria ser, mas aí já seria querer muito da "Cidadã"...), já que é relativizada, na Constituição, pelos direitos, por exemplo, à honra, imagem e reputação. Mas por que os juízes nunca fazem o raciocínio do outro jeito: honra, imagem e reputação não são direitos absolutos, já que relativizados pela liberdade de expressão?

Reconhecimento de padrões


Acho que a esta altura todo mundo já sabe que o "Pé-Grande" (ou "homem cagando", ou "mulher agachada") de Marte é, na verdade, uma pedrinha de nada. De qualquer forma, aqi vai um desafio: localizar o ponto exato da imagem enganosa no panorama original feito pelo Spirit.


O fenômeno de encaixar uma forma visual aleatória num esquema pré-concebido é conhecido como pareidolia, e faz parte do equipamento cognitivo da espécie: como já dise alguém, o australopiteco que ficava em dúvida sobre se aquela sombra era um leopardo ou só uma sombra tinha bem menos a perder se saísse correndo.


Pareidolia, no entanto, é parte de um fenômeno mais geral, o de reconhecimento de padrões, que atua em outras esferas além da visual. E ao qual se soma outra peça da nossa caixa de ferramentas cognitiva, o viés de confirmação.

Por exemplo: tempos atrás, cientistas deram a voluntários uma seqüência de números (2, 4, 6). Pediram-lhes que teorizassem sobre qual a regra por trás da escolha dos dígitos, e que testassem a teoria, propondo novas seqüências. A cada proposta, os cientistas respondiam “serve” ou “não serve”.

A resposta “serve” deixava os voluntários convencidíssimos de que haviam encontrado a regra certa – digamos, só números pares. Mas estavam errados.

Eles erraram por causa do viés de confirmação, a tendência de buscar só os dados que confirmem nossos preconceitos e esperanças, e fugir de tudo que os desmentem. No caso da idéia de que a regra seria “números pares”, ninguém pensou em testar números ímpares antes de acreditar ter matado o problema.

O viés explica a persistência de superstições e tem um papel também na política e na publicidade. Como escapar dele? O melhor é fazer como Carl Sagan, que quando lhe perguntavam “nas suas entranhas, o que você acha que é certo?”, respondia: “Não penso com as entranhas”.

Quanto aos números, a regra certa era: qualquer grupo de três, desde que em ordem crescente.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Superstições, só as de pedigree

A miss Stéphanie Conover não poderá ser uma das juradas do concurso de beleza Miss Toronto Turismo por gostar de "bruxaria", informou nesta segunda-feira a organização do evento.

(...)

A organização do evento afirmou que a "leitura do tarô e do reiki (uma prática originada no Japão) fazem parte do oculto e não é aceitável por Deus, os judeus, muçulmanos ou cristãos". (EFE)

'Todos o homens são criados iguais...'

Em um comentário a uma postagem anterior, Patola (um dos meus dois leitores assíduos!) ponderou que a idéia da Tábula Rasa -- de que todas as pessoas nascem como "páginas em branco", a serem peenchidas pela educação e pelo meio -- acaba sendo defendida por reflexo, em círculos ligados às humanidades, como uma espécie de ficção útil, necessária para manter o edifício dos direitos humanos em pé.

E, de fato, um dos documentos fundadores da noção moderna de direito humano, a Declaração de Independência dos Estados Unidos, diz, textualmente: "Todos os homens são criados iguais e dotados, pelo Criador, de certos direitos inalienáveis..."

Isso parece ancorar a idéia de direito humano em dois pressupostos: (a) igualdade total no nascimento e (b) outorga por um Poder Superior.

É preciso, porém, pôr esses conceitos me contexto. A revolução americana foi uma revolta republicana contra a aristocracia, uma classe que, de fato, apoiava seus privilégios na idéia de superioridade por nascimento.

É evidente que, entre os dois pressupostos -- algumas pessoas nascem indiscultivelmente superiores só porque são fruto de determinada família ou raça, versus todas nascem iguais -- a verdade está mais próxima do segundo.

Mas, mesmo se isso não fosse verdade: acho que foi Isaac Asimov que certa vez ponderou: suponha que uma parcela da raça humana seja, de fato, menos inteligente, menos trabalhadora, menos capaz de desenvolvimento que outra. Da onde concluir que, por causa disso, os mais capazes devem acumular privilégios para si e oprimir os menos afortunados?

De lugar nenhum. Mesmo se os pressupostos aristocráticos (ou, para dar o devido nome aos bois, racistas) fossem verdadeiros, a aristocracia e o racismo continuariam a ser imorais.


Então, não precisamos da Tábula Rasa para inferir os direitos humanos.


Quanto ao Poder Superior, há o bom e velho dilema de Sócrates (via Platão): os deuses amam o que é direito, ou as coisas são direitas por que os deuses as amam?

Se o primeiro, então a noção de direito é inata e nã precisa ser ditada; se o segundo, então a moralidade é como a moda, escrava de caprichos que vêm "de cima", tortura e genocídio são perfeitamente morais, desde que feitos em nome do Deus Verdadeiro.

E o troféu vai para...?

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

'Inquisição secularista'

Em artigo na edição desta segunda-feira de O Estado de S. Paulo, o porta-voz brasileiro do Opus Dei, Carlos Alberto Di Franco, queixa-se das manifestações contra o papa na Universidade de Roma, levantando brados contra uma suposta onda de intolerância secularista (ei, só porque não queremos que nossas vidas sejam controladas por um punhado de superstições medievais?) e, no fim, compara o manifesto anticlerical dos cientistas italianos a uma "inquisição".

A comparação é tão chocante que quase dispensa comentário -- ele está tentando igualar séculos de violência institucional a um bando de moleques carregando cartazes e a uma carta aberta assinada por 67 professores?

Alguém precisa explicar pra esse cara que existe uma diferença entre grafitar paredes e cometer tortura e assassinato em escala industrial.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Tábula Rasa, Dualismo e Frankenstein

A oposição de alguns acadêmicos ao projeto de estudar o funcionamento do cérebro de jovens homicidas parece mais uma reafirmação de três velhos mitos.

O primeiro é o da tábula rasa -- de que o ser humano nasce como uma "folha em branco", e que tudo que faz, todos os erros que comete e todos os méritos que possa ter são fruto do meio em que vive e de suas relações com outras pessoas.

Essa visão, além de cientificamente frágil (como já bem mostrou Steve Pinker) deixa aberta a curiosa questão de da onde, afinal, vêm as condições ambientais e os comportamentos das pessoas que determinam o conteúdo de cada mente originalmente vazia.

O segundo é o mito do dualismo: de que os fenômenos "mentais" são diferentes dos fenômenos "físicos" de algum modo essencial; que é impossível (reducionista) descrever, ou mesmo correlacionar, o que se passa no espírito com o que ocorre no corpo. Quem diz isso, é óbvio, nunca ficou corado (e nem, por falar nisso, teve ou presenciou uma ereção).

O terceiro, e pior, é o mito de Frankenstein: de que há coisas que é melhor não saber. Tipo: se descobríssemos que todas as pessoas de olhos castanhos e que têm pêlos nas orelhas são (digamos) homicidas em potencial, isso levaria a gulags, limpeza étnica, injustiças por atacado... logo, é melhor ignorarmos esse tipo de informação!

Como portador de ambas as características, eu talvez me sentisse tentado a concordar com o raciocínio, mas a objeção ignora, claro, que o conhecimento disponível e o que a sociedade decide fazer com ele são coisas distintas. Não foi a ciência que apagou Hiroshima do mapa, foi o governo de Harry S. Truman. E ignora, ainda, o fato de que, quando é preciso tomar uma decisão, é sempre bom ter o máximo possível de informação relevante a respeito.

Como disse o ganhador do Nobel Peter Medawar, a missão da ciência é criar a oportunidade de tornar real tudo o que for possível. O que vamos fazer com as oportunidades que surgirem é uma questão cabeluda, mas abrir mão da missão é covardia, na melhor das hipóteses -- ou obscurantismo, na pior.

sábado, 26 de janeiro de 2008

'Journal' criacionista


Tá, sei que já entreguei o Prêmio Idéia Cretina do mês (tenho a esperança de que a periodicidade mensal seja suficiente) ao Vaticano, então este aqui ganha o recém-instituído Galardão do Humorismo Involuntário: Answers Research Journal, uma publicação, desculpe, "científica" destinada a "construir o modelo criacionsita" do mundo.


Resumindo: uma publicação onde "cientistas criacionistas" -- algo que faz tanto sentido quanto "círculo quadrardo" ou "papa muçulmano" -- poderão apresentar seus fascinentes estudos e conclusões ao público e à academia.


O primeiro número traz um dossiê especial sobre micróbios, onde diverso autores se desdobram para explicar qual o papel dos vírus e bactérias no esquema da criação, e por que nenhuma dessas criaturas é citada no Livro do Gênese. Além disso, outras questões candentes são tratadas, a saber: teriam os micróbios sido criados nos seis dias originais de trabalho do Senhor, ou surgido como um subproduto da Queda?


Uma hipótese que você não vai encontrar lá: o Gênese é uma compilação de tradições de povos nômades, ignorantes e supersticiosos da Idade do Bronze, que pura e simplesmente não sabiam da existência de micróbios -- do mesmo jeito, por exemplo, que o(s) autor(es) da(s) narrativa(s) do Dilúvio não sabiam de marsupiais, ergo a ausência de cangurus na Arca.


Ah, sim: na imagem acima, Escheria coli, o seu sempre fiel, amigo inseparável, coliforme fecal.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Os Três Porquinhos e o islã


A notícia é meio velha, mas emblemática: um livro inspirado em Os Três Porquinhos foi barrado em uma competição oficial britânica porque a figura do porco pode ofender os muçulmanos.


Alguém já disse que o que está por trás do multiculturalismo é o anseio, profundamente racista, por fazer do mundo um zoológico humano -- um mundo onde os "ocidentais esclaredidos" possam visitar culturas exóticas intocadas e assistir, maravilhados, aos hábitos selvagens dos povos primitivos.


Que meninas tenham o clitóris extirpado no processo é um preço pequeno a pagar pelo maior espetáculo da Terra.


Como o caso das charges de Maomé , este dos porquinhos mostra como o multiculturalismo transforma valores centrais do modo de vida ocidental em reféns de um punhado de fanáticos: de repente, a sensibilidade de um mulá qualquer torna-se mais importante que a liberdade de expressão.


Mas a questão dos porquinhos põe em evidência uma nova dimensão racista: o porco também é um animal imundo para os judeus. Por que o comitê que vetou o livro não citou o povo hebreu como outro grupo que poderia se ofender com a publicação?


Talvez porque achem que os judeus têm a óbvia capacidade -- desenvolvida, no caso de seres humanos mentalmente saudáveis, logo na infância -- de distinguir entre contextos e perceber um porco num livro infantil é uma coisa, um porco num livro sagrado, outra, e um porco assado na mesa, outra ainda.


E, se os judeus têm essa capacidade, por que os muçulmanos em geral (salvo uma meia dúzia de maníacos) não teriam? O pressuposto, no fim, é de que todos os seguidores dos islã são, se não idiotas violentos, pelo menos idiotas.

E isso é que é racista.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Papa pede menos sensacionalismo na mídia

"Além disso, a fim de atrair os ouvintes e aumentar sua audiência, eles (os meios de comunicação) não hesitam, algumas vezes, em lançar mão da vulgaridade e da violência, ultrapassando os limites", disse Bento XVI, segundo a Reuters.

Esse cara andou lendo o Velho Testamento recentemente?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O milagre do milagre

Sempre achei curiosa a deferência com que a mídia trata os anúncios de milagres reconhecidos pelo Vaticano, os tais que podem levar este ou aquele beato a virar santo. Afinal, quando um guru indiano afirma que uma estátua do deus-elefante Ganesh está bebendo leite, a notícia sai, se sair, como uma curiosidade tola, ao lado da cabra de duas cabeças e da mais recente bebedeira de Mel Gibson.

Já quando uma autoridade católica anuncia um milagre, o assunto não só migra para as páginas mais nobres, como o tratamento, longe de ser crítico, oscila entre o neutro e o reverente. Por quê?

Nas faculdades de jornalismo, ensina-se que, entre os critérios para definir o que é notícia estão o número de pessoas interessadas na questão e a proximidade entre o público e o fato. Esses critérios explicam o maior espaço dado aos santos católicos: o catolicismo é a segunda maior religião do mundo (atrás do islã), e ainda predomina no Brasil.

Nada disso dá conta, porém, da reverência.

Existe um argumento muito elegante, do filósofo David Hume (1711-1776), que diz, resumidamente, o seguinte: o que parece mais impossível: a pessoa que narra o milagre estar enganada (ou mentir) ou o fato ter acontecido como ela diz? Na dúvida, é sempre mais prudente optar pela “impossibilidade” menor.

Jornalistas já aplicam um princípio parecido às promessas dos políticos. Só a religião é que parece imune.

No caso dos processos de canonização, nem é preciso chegar à filosofia. Basta estatística. No geral, esses “milagres” são curas, ditas inexplicadas – adjetivo que, numa manobra retórica não exatamente honesta, vira, muitas vezes, “inexplicáveis” – e, portanto, atribuídas, na falta de coisa melhor, a orações para o beato em questão.

Agora, comunidades católicas geralmente lançam grandes campanhas pela canonização de seus beatos favoritos. Isso põe centenas, milhares ou, até, milhões de pessoas, com problemas diversos, rezando para o candidato.

Num escala dessas, alguém obter uma “graça milagrosa” não é mais difícil do que alguém ganhar na loteria. É a chamada lei dos grandes números: se uma coisa tem 0,01% de chance acontecer, ela ocorrerá, por puro acaso, mais um menos uma vez a cada dez mil tentativas.

Claro, pessoas religiosas estão livres para chamar o acaso de milagre, se lhes aprouver. O que não é certo é o jornalista passar adiante uma afirmação de fé como se fosse uma confirmação de fato. Há, afinal, o risco de Ganesh aparecer para exigir tratamento igual...

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Por que no te calas?

E o bispo D. Cappio voltou a falar contra Lula e a transposição do Rio São Francisco. A transposição é o tipo de processo em que o público deveria buscar a opinião de engenheiros e cientistas - quanto à viabilidade técnica e impacto ambiental - e de políticos e das populações interessadas - quanto às relações de custo-benefício para os diversos grupos envolvidos ou atingidos pelo processo.

O que, exatamente, faz com que um bispo católico, enquanto bispo, se torne referência central nesse processo? Ainda mais, dado que o único argumento que ele parece ter é messiânico-populista.

O clero católico - principalmente quando enverga batina ou camisolão - reveste-se de uma aura de autoridade moral que parece resistir a toda e qualquer prova em contrário, seja atual ou histórica.

O uso político dessa aura, no entanto, nunca é mais que um tipo não muito velado de extorsão, que usa as superstições (reais ou supostas) da população como instrumento de chantagem sobre a liderança política. Contra uma ditadura, esse tipo de recurso pode até ser justificável; na democracia, é obsceno.

domingo, 20 de janeiro de 2008

A vacina e os aproveitadores

A corrida atual à vacina contra a febre amarela faz-me lembrar do fenômeno oposto - a tendência de pessoas que se consideram "sofisticadas" e "esclarecidas" em não vacinar os filhos.

O fenômeno pode ter várias causas, desde uma vaga desconfiança no establishment de saúde à adesão a superstições "New Age" quanto à natureza exata da relação entre saúde e doença, chegando a preconceitos religiosos e passando por críticas aparentemente científicas ao processo de vacinação (como a suposta ligação, já demonstrada espúria, entre vacina e autismo).

(Abaixo, uma tabela com a evolução mundial dos casos de pólio nos últimos 25 anos. A campanha mundial pela erradicação da doença, por meio da vacinação, teve início em 1988.)




Seja qual for o motivo, no entanto, pais de que recusam a vacinar os filhos tornam-se, na prática, aquilo que estudiosos da teoria dos jogos e economistas chamam de freeloaders ou, em bom português, aproveitadores: gente que desfruta de um bem coletivo sem colaborar com o esforço necessário para criá-lo.

O bem, claro, é a ampla imunização da população contra horrores medievais como a pólio ou o tétano.

No entanto, como a teoria sugere (e os fatos mostram) o freeloading é uma estratégia perigosa: há uma boa chance de que o restante da população se dê conta de que é - aparentemente - possível desfrutar do benefício sem pagar o preço e, então, todo mundo pára de se esforçar. O resultado, claro, é o colapso do benefício.

Sempre que se fala em criar leis, lembro-me de um dito liberal que define lei como "algo que dá ao Estado o direito de mandar homens armados para obrigar alguém a se comportar de determinada maneira". Com essa definição em mente, digo que a vacinação deveria ser obrigatória por lei.

Muitos pais que não vacinam os filhos apontam para o desenvolvimento saudável de suas crianças como "prova" de que a vacinação é desnecessária ou, mesmo, prejudicial. Isso é o mesmo que dizer que jogar roleta russa é seguro porque, com um revólver de seis tiros, a chance de estourar os miolos é de "apenas" 16%.

E o pior, esses pais fazem isso com os miolos dos próprios filhos - e dos filhos dos outros.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Clone do cientista maligno

O cientista e empresário americano Samuel Wood criou um clone embrionário de si mesmo e -- em vez de usá-lo como back-up em algum plano de dominação mundial -- simplesmente o destruiu, na preparação de um experimento para extração de células-tronco.

Para muita gente, o que Wood fez foi uma enormidade, começando com "brincar de Deus" (clonar-se) e culminando com assassinato (destruir o embrião). A idéia é de que, uma vez fecundado o óvulo, o que resulta (uma bolota de dezenas de células) já é um ser humano dotado de diretos.

Há quem afirme isso a despeito do fato de que, seguindo um critério muito parecido, mais "seres humanos" são mortos cada vez que você corta o dedo tentando descascar uma laranja; a despeito, ainda, do fato de que de todos os óvulos fecundados "naturalmente", no bom e velho esquema do pecado original, pelo menos 50% deixarão de fixar-se ao útero, e serão eliminados sem que ninguém note; e dos que se fixarem, 30% acabarão vítimas de abortos espontâneos.

Resumindo: se o óvulo fertilizado é um ser humano, então cerca de 70% da população da Terra morre antes mesmo de nascer.

O plano de Deus é realmente misterioso.

Hoje em dia, aceita-se que a morte vem quando o cérebro pára de funcionar: mesmo que o coração continue batendo, a morte cerebral basta para que, por exemplo, um doador tenha os órgãos extraídos para uso em transplante. Se o fim do cérebro marca a morte, como se pode falar em vida, antes mesmo que o cérebro tenha começado a surgir?

Um argumento muito usado é o de que o embrião tem o potencial de se tornar uma nova pessoa, enquanto que o corpo com morte cerebral não tem mais potencial nenhum. Mas é estranho usar o conceito de potenciais para determinar direitos: por exemplo, como brasileiro nato, tenho o potencial de ser presidente da República. Isso não me dá, porém, o direito de viajar amanhã para Paris no Aerolula, nem de contar com a proteção da Polícia Federal toda vez que saio na rua.


O que é uma pena, mas estou começando a me conformar...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O disco voador e a verdade irrefutável

Saiu mais uma notícia sobre avistamento de óvni. O despacho da AP tem o mérito de ouvir uma fonte que entende um pouco do asunto (um major da Força Aérea americana) mas, dada a queda por conspirações dos entusiastas de discos voadores, isso não vai ajudar muito...

Esta é, aliás, uma das marcas da subcultura dos óvnis e, também, de outras subculturas tidas como bem mais respeitáveis, como a do marxismo e a da psicanálise: toda confirmação de suas crenças as confirma; todo desmentido, também. Isso é jogar epistemologia com dados viciados.

No caso dos óvnis, o mais interessante é o argumento do apelo à ignorância: "Havia algo no céu. Como você sabe que não era uma nave alienígena?"

Ok, eu não sei, não com certeza absoluta. Mas como você sabe que era? Que não era uma ilusão gerada pela Matrix, um Anjo do Senhor, um pedaço de lixo espacial ou um balão meteorológico?

Pessoas vêem coisas estranhas no céu há milênios, e interagem, ou imaginam interagir, com formas sobrenaturais (demônios, fantasmas, ETs, anjos) há milênios, também.

O fato de os fenômenos serem todos muito parecidos, e apenas a explicação mudar conforme muda a "cultura pop" de cada época, sugere que o que temos é apenas ignorância travestida de explicação.

Mas, então, o que são os óvnis, de verdade? Eu sugeriria que cada caso é um caso: não existe uma explicação geral. O qe talves possa ser passível de explicação em termos amplos é por que as pessoas sempre buscam encaixar o que não entendem dentro das expectativas de sua cultura e sociedade. Ou: para quem tem um martelo, tudo parece prego.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O papa na universidade

Então, parece que estudantes e professores da Universidade La Sapienza, em Roma, conseguiram fazer Joseph Ratzinger (a.k.a. papa Bento XVI) se sentir persona non grata e cancelar uma visita à instituição, fundada, aliás, por um outro papa, há uns 700 anos.

O ponto crítico parece ter sido a memória de um discurso feito por Ratzinger há duas décdas, no qual ele citava, aparentemente em tom de aprovação, um comentário do teórico da ciência Paul Feyerabend sobre o julgamento de Galileu. (Aliás, Ratzinger, o inimigo número 1 dos relativismos, citando Feyerabend, o pai da "anarquia epistemológica"? O que é isso, minha gente?).

Para além da questão do oportunismo retórico de Ratzinger, no entanto, o verdadeiro debate é sobre a questão da liberdade de expressão: teria sido Sua Satidade "censurada" pelo público de La Sapienza, ao se ver constrangido a não comparecer à instituição e não falar para os estudantes?

Existe, aí, uma outra questão, oculta: a da adequação. Digo, um cara da platéia de repente se levantar e começar a cantar pagode no meio de conconcerto de Mozart é uma instância de "liberdade de expressão", mas altamente inadequada. Eu não classificaria a atitude de mandá-lo calar a boca, ou uma intervenção moderada de leões-de-chácara, como atitude fascista, liberticida ou coisa do gênero.

Minha humilde opinião: um discurso do papa em uma universidade secular só será adequado (a) se ele estiver servindo de cobaia para "scholars" de religião ou (b) no dia em que alguém como Christopher Hitchens for convidado para falar à multidão na Praça de São Pedro.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O sentido da vida

Uma acusação que freqüentemente aparece na boca de religiosos -- e de outros apologistas de superstições da Idade do Bronze -- é a de que o materialismo torna a vida humana "sem sentido". Como todo argumento costumeiro, este é um onde o que realmente se diz se confunde com o que se parece dizer, por conta das camadas e nuances de significado que as palavras acumulam na cultura.

Materialismo, por exemplo: para quem nunca estudou ou se preocupou com filosofia, "materialismo" é a doutrina de que o bem supremo está na acumulação de bens materiais -- dinheiro, jóias, jatinhos -- por quaisquer meios disponíveis. Mais ou menos como alguns pastores evangélicos fazem hoje, ou a Igreja Católica fazia na Idade Média e no Renascimento, ou Madonna canta em Material Girl.


Para evitar essa confusão, o melhor termo seria "naturalismo": a doutrina de que não existe
nada fora ou além da natureza. Ou, determinismo naturalista: a idéia de que tudo que há e ocorre no Universo em um dado instante é conseqüência, apenas e tão somente, do estado físico do Universo no instante anterior.

E por que essa visão de mundo -- embasada em evidências sólidas e séculos de pesquisa científica -- comprometeria o "sentido da vida"?

Como de costume, religiosos e místicos introduzem como premissa o próprio ponto que querem provar: a vida só faz sentido se existir um plano espiritual. Logo, se não há um plano espiritual, a vida não faz entido. Tão lógico quanto: eu quero um milhão de dólares. É necessário que eu receba tudo o que quero. Logo, dê-me um milhão de dólares.

Óquei, antes que me acusem de má vontade, vamos ver no quê um "plano espiritual" pode ajudar a vida a encontrar sentido. Pode ser porque esse "plano" coloca a vida humana em perspectiva, em relação a um Poder Superior. Então, o sentido da vida seria agradar a esse Poder, mais ou menos como o sentido da vida de um cachorro é agradar ao dono. Hmm. Thanks, but no, thanks.

Também pode ser por causa da vida eterna ou, no geral, de um "plano cósmico": o sentido da vida no "plano material" se revela na conquista da vida eterna, ou na realização de um grande "plano cósmico". Certo. Mas, então, qual o sentido da vida eterna? Ou do plano cósmico, por falar nisso? Esse "sentido da vida" não responde a nada, apenas adia a pergunta -- a bem da verdade, chuta a bola no mato, torcendo pra ninguém encontrar.


No fim, qual o sentido de perguntar qual o sentido da vida? A evolução fez do homem um animal que busca dar sentido a tudo, mas talvez falar em "sentido da vida" seja um erro conceitual tão grande quanto perguntar, por exemplo, se o carrinho de cachorro-quente vai melhor com mostarda.

Cada vida ganha significados diversos, que podem ser escolhidos, conscientemente ou não, por quem a vive, ou atribuídos por quem a testemunha. Se você realmente quer que a sua vida tenha um, existe a opção de terceirizar a tarefa para o Grande Amigo Imaginário no Céu, o para o Grande Country Club (ou bordel, dependendo da sua religião) do Além. Mas será que isso resolve algo?

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

'O Segredo'

Isso é para eu nunca mais subestimar o poder da perseverança, da força de vontade e da criatividade humana: quando já estava achando que os homens de marketing tinham extinguido todas as possibilidades de vender gases intestinais a preço de ouro, eis que minha fé no poder infinito da associação entre ganância e estupidez é restaurada por esta jóia da filosofia moderna: O Segredo por Ana Maria Braga.

É por essas e outras que me pego torcendo pelos marcianos toda vez que releio A Guerra dos Mundos.

A falácia por trás de 'O Segredo' e da tal da lei da atração já foi exposta várias vezes; a melhor de todas as exposições que conheço é esta aqui, da revista Salon (o site pede que você assista a um pequno comercial antes de chegar ao texto, mas vale a pena). Em resumo, a idéia de que os pensamentos de uma pessoa "atraem" o que acontece com ela tem dois grandes problemas:

  1. Um é o chamado "paradoxo da prece", estipulado há séculos por Voltaire: se eu rezo pedindo chuva e meu vizinho reza pedindo sol, como poderemos ser os dois atendidos? Em termos de ambições humanas, o fato é que só existe um campeão da Copa do Mundo, um recordista mundial dos 100 metros, um presidente da Coca-Cola, 10 mil vagas na Fuvest (para 37 mil candidatos na 2a fase) e uma pessoa no seu emprego -- você. Se todo mundo que quer essas coisas usar 'O Segeredo', o que acontece?
  2. Transforma vítimas em culpados. Um exemplo extremo usado pelos críticos da "lei da atração" é o Holocausto: seis milhões de judeus "atraíram" o nazismo e as câmaras de gás com seus pensamentos negativos...
Claro, uma atitude positiva ajuda, se uma pessoa não tem convicção no que está fazendo ela tenderá a render menos, etc., etc. Mas isso são obviedades, e se forem tomadas como uma receita completa de sucesso, distorcem por completo as noções de possibilidade, responsabilidade e causa e efeito.

Dizem que boxeadores miram seus golpes em um ponto atrás do adversário: assim, eles não socam o oponente, mas através dele. Isso, além de ser uma metáfora pseudo-profunda para o poder da ambição, aumenta o poder do ataque -- mas se você não for um lutador treinado e bem-preparado, só essa técnica não ajudará em nada na hora de enfrentar o campeão...

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Holismo

Volta e meia aparece, principalmente em textos esotéricos, uma condenação da visão “reducionista”, “limitada” da realidade, em favor de uma visão “integral”, “holística” – e que cedo ou tarde leva aos florais de Bach e, em casos mais graves, ao mapa astral.

A principal idéia por trás da tal visão “integral” é que tudo está relacionado com tudo. O que é até verdade: o Efeito EPR, um fenômeno científico bem documentado, mostra que duas partículas subatômicas que tenham se encontrado uma vez podem continuar influenciando uma à outra, mesmo a distâncias enormes.

Fica a pergunta: e daí? Quer dizer que antes de comprar um carro é preciso levar em conta o ciclo de vida das bactérias marcianas? Gato preto dá azar? Fazer figa espanta mau olhado?

A constatação irrestrita de que tudo influencia tudo é a mãe das superstições. A percepção de que há de separar o relevante do desprezível em cada caso – reduzindo e limitando – dá origem à ciência.

Mas, e o Efeito EPR? Bom, ele se aplica a partículas muito, muito pequenas. Achar que é possível generalizá-lo automaticamente para estruturas feitas de bilhões e bilhões dessas partículas é mais ou menos como dizer que é impossível morar dentro de uma casa feita de tijolos, porque os tijolos são rígidos e sem espaço interno -- logo, a casa também será.

E isso sim é que é um reducionismo estúpido.


(Diferentes tipos de reducionismo merecerão uma postagem à parte algum dia...)

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Orações pelas vítimas de padres pedófilos

Juro que não havia me ocorrido propor um Prêmio Idéia Cretina até ler esta notícia sobre a iniciativa do Vaticano, solicitando orações para ajudar as vítimas de clérigos pedófilos. O mais chocante, a meu ver, é que um ato de hipocrisia assim tão óbvio -- para usar uma imagem bíblica, que clama aos céus por vingança -- só pode ser, de certa forma, inocente: nenhum cínico consciente do próprio cinismo seria capaz de executar uma enormidade dessas.

Digo, foi a crença em orações que transformou as vítimas em vítimas, para começo de conversa, certo?

E, de resto, se Deus realmente existisse -- e se importasse com as vítimas de Seus ministros -- Ele teria tido ampla oportunidade de ajudar antes, sem precisar ser exortado a tanto por milhões de fiéis prostrados, e depois de o dano estar feito.

Isso me lembra um bom argumento do filófoso australiano J.L. Mackie: se você é capaz de impedir um crime sem sofrer nenhum dano e sem correr nenhum risco, e não o faz, então você é cúmplice. Deus é capaz de tudo e jamais corre risco nenhum. Logo...

De um ponto de vista mais prático, há o risco de as orações agravarem a situação das vítimas, como mostrou este estudo sobre prece intercessória: dos pacientes de cirurgia cardíaca que souberam que estavam recebendo orações, 59% tiveram complicações, contra 51% dos que não receberam preces.

Ou Deus não está ouvindo, ou tem um jeito muito engraçado de atender a pedidos...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Anos Dourados? Dourados pra quem?

Uma idéia muito comum, principalmente nestes tempos de transição no calendário, é a de que no passado tudo era melhor. Para além da visita do Papai Noel, quando confrontadas com um balanço anual cheio de mensalões e renans, e com a perspectiva de IOFs e big brothers pela frente, muitas pessoas se enchem de saudade dos Anos Dourados -- geralmente, da época das novelas de época.

Mas aquilo era melhor, mesmo? Até a descoberta dos antibióticos, há menos de 100 anos, a chance de uma pessoa passar dos 40 era a mesma que alguém tem, hoje, de passar dos 70. Há menos de 200 anos, escravidão era coisa normal.

Outro exemplo: Carlos V (1500-1558), rei da Espanha e imperador romano, um dos homens mais poderosos de todos os tempos – além de boa parte da Europa, dominava a maior parte das Américas – tinha gota. A doença o transformou num inválido, incapaz até de andar, e o levou a abdicar em 1556.

Também tenho gota. Mas tomo meu remédio, controlo a dieta e, graças a isso, sou capaz de desfrutar de longas caminhadas. Enfim, eu, que só sou rei para a minha gata siamesa (e olhe lá), vivo melhor do que o mestre e senhor de dois continentes vivia, 500 anos atrás.

O presente não é perfeito e o futuro preocupa, mas imitar o passado não vai resolver nada. Afinal, bandidos e políticos corruptos sempre houve: até novela de época tem vilão.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Curas alternativas

Em uma postagem anterior sobre homeopatia, eu havia prometido aprofundar um pouco a questão de por que processos "terapêuticos" inúteis muitas vezes parecem surtir efeito. Bom, chegou a hora de cumprir a promessa.

Na base do engano está, além do efeito placebo (discutido na mesma postagem linkada acima), uma falácia lógica conhecida -- para quem quiser usar o latim a fim de fazer amigos e influenciar pessoas -- como "post hoc, ergo proter hoc", ou, "depois daquilo, logo por causa daquilo". Tipo, 100% das pessoas que morrem atropeladas beberam um copo de água, pelo menos, nas 24 horas anteriores ao atropelamento. Logo...

Quando se trata de saúde, a falácia surge ao atribuir-se a cura (ou alívio de sintomas) ao tratamento, sem verificar outras explicações possíveis ou analisar evidências em contrário. Um caso clássico é o do médico americano Benjamin Rush, um dos Pais da Pátria dos EUA, que no século XVIII tentou tratar uma epidemia de febre amarela com purgantes à base de mercúrio.

Esse remédio era, claro, um veneno (embora não se soubesse disso na época), mas o fato de que algumas pessoas conseguiam sobreviver à febre -- e ao envenenamento -- convenceu o Dr. Rush de que seu tratamento era eficaz. A verdade, no entanto, é de que as pessoas "curadas" por ele provavelmente teriam sarado mais cedo sem seu remédio, e muitos dos pacientes que ele perdeu talvez tivessem sobrevivido, se fosem poupados do purgante.


Em linhas gerais, quando uma pessoa sara ou melhora depois de receber tratamento, essa melhora pode ter sido provocada por:

  1. Uma causa externa não-relacionada ao tratamento (repouso, mudança de dieta, etc.)
  2. Uma causa interna não- relacionada ao tratamento (reação espontânea das defesas do organismo, auto-limitação do agente causador)
  3. Efeito placebo
  4. O tratamento pode ter funcionado
Para afirmar que o tratamento realmente funcionou, é preciso eliminar logicamente todas as demais alternativas. Os protocolos científicos da Medicina foram criados exatamente para fazer isso -- e não para enriquecer a indústria farmacêutica alopática ou para impor um "imperialismo metodológico etnocêntrico", como querem muitos dos defensores das práticas ditas "alternativas" ou "complementares".

Outra lição a tirar do caso do Dr. Rush é o sistema de dois pesos e duas medidas usado quando se discutem práticas médicas alternativas: basicamente, se o paciente sara, é porque o tratamento funciona; se não, é porque o tratamento começou tarde demais, ou não foi radical o suficiente (para ficar no mesmo exemplo, além do purgente, o Dr. Rush recomendava sangrias). Se houver algum tipo de "energia" ou "milagre" na jogada, pode-se, ainda, acusar o paciente de falta de fé...

Mas isso -- culpar a "espiritualidade" da vítima pela doença -- será assunto para outra postagem.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

"E se sua mãe tivesse feito aborto?"

Como o argumento escroto é um parente próximo da idéia cretina, resolvi abrir espaço para um dos truques retóricos mais sujos de todos os tempos, que geralmente surge na boca dos adversários da legalização do aborto (ou, melhor dizendo, do direito da mulher de interromper a gravidez) quando a conversa começa a esquentar.

Por ser grosseira, a questão que dá título a essa postagem tende a transformar o debate em uma troca de impropérios, mas não precisaria ser assim. Vamos analisar friamente a questão:

"E se sua mãe tivesse feito aborto?"

Bom, se ela tivesse feito eu não estaria aqui e esta conversa não estaria acontecendo, o que torna o exercício todo meio fútil. Então talvez o melhor fosse reformular a questão da seguinte forma:

"E se sua mãe tivesse desejado fazer um aborto?"

O que, na boca de um padre condescendente ou de um debatedor histriônico, sugere que cada pessoa viva, hoje, deveria se sentir profundamente grata pelo fato de a interrupção da gravidez ser considerada ilegal e, em muitos círculos, imoral.

Mas, espere aí. Se isso fosse verdade, então nossos nascimentos teriam ocorrido não por amor, mas por medo da polícia, do inferno ou de ambos. Ser grato pelo complexo legal-cultural que instila esse medo, em detrimento da liberdade da mulher - de nossas mães! -, tem nome: egoísmo descarado.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

"Risco de morte"

Durante séculos, escritores e falantes da língua portuguesa, dos clássicos aos mundanos, usaram a bela expressão "risco de vida" para se referir a situações que põem a vida em - isso mesmo - risco. De uma hora para outra, algum jornalista decidiu que o que é bom para José de Alencar não presta para as redações modernas, e inventou o hediondo "risco de morte" (mais feio que isso, só "estadunidense"...).

O argumento é de que "risco de vida" dá a impressão de que o fulano de quem se fala está em "risco de viver". Bom, só tem essa impressão quem nunca ouviu ou leu o português em toda a vida, e é totalmente alheio às tradições da língua.

Alguém poderia redargüir que a tradição, nesse caso, desafia a lógica, e a lógica é mais importante.

Mas esse é um argumento que tem uma base falsa -- de que a língua deve ser perfeitamente, explicitamente, lógica em cada uma de suas expressões e estruturas. Trata-se de uma falácia óbvia. Se fosse levada a sério, morreriam todas as figuras de linguagem.

De resto, os defensores dessa logicidade total deveriam, por coerência, parar de usar expressões como "não tinha ninguém" ou "ninguém fez nada". Mais dia menos dia, então, veremos algo assim no noticiário político: "O pronunciamento do presidentre do Senado foi ouvido por ninguém no plenário".

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Astrologia

Deixando de lado as objeções astronômicas clássicas à astrologia -- que o zodíaco é composto por 13 constelações, não 12; que a precessão dos equinócios faz com que o movimento aparente do Sol pela esfera celeste não coincida mais com as datas astrológicas; e um monte de outras, todas igualmente válidas e igualmente sólidas -- o importante é dizer, da forma mais clara e objetiva possível, que astrologia não funciona. Simples assim. Trata-se de um fato científico, tão sólido quanto o da Terra girar em torno do Sol ou as plantas fazerem fotossíntese.

Como todos os demais fatos científicos, este foi confirmado, checado e re-checado em uma série de estudos.



A tabela acima mostra o resultado combinado de 54 estudos, envolvendo um total de 742 astrólogos, nos quais os astrólogos tentaram associar mapas astrais a seus devidos donos. O resultado não foi melhor do que teria sido se eles simplesmente tirassem cara-ou-coroa na hora de fazer a ligação entre carta e pessoa.

A tabela abaixo é ainda pior: ela mostra a proporção em que mais de 500 astrólogos, envolvidos em 28 estudos, concordaram na interpretação de mapas astrais -- mais ou menos como seria mostrar um mesmo raio-X a vários médicos diferentes e ver se todos chegam ao mesmo diagnóstico.



Resultado? De novo, o mesmo se os astrólogos tivessem decidido concordar ou discordar jogando uma moeda para o alto. Era de se esperar que os praticantes de uma forma de "sabedoria milenar" conseguissem, pelo menos, chegar a um acordo, depois de tanto tempo!

Ah, sim: a fonte das tabelas é este artigo científico, que pode ser encontrado neste website.

O fato, no entanto, é que a astrologia parece funcionar para muita gente. O fenômeno, no entanto, é meramente psicológico: a astrologia tem uma linguagem peculiar, que é extremamente vaga mas consegue parecer direta e específica. Eu mesmo tive uma boa dose disso na minha adolescência, quando acreditei nesse negócio -- ei, ninguém nasce sabendo, certo? -- e um mapa astral, feito com um horário de nascimento errado, disse que meu ascendente era gêmeos.

Li a descrição e ela pareceu correta, adequada, reveladora. Tempos depois, descobri que meu ascendente era touro e, adivinhe só?, a descrição (outra descrição) também se mostrou correta, adequada, reveladora...

Este é o chamado "Efeito Forer", ou "Efeito Barnum". Por exemplo, frases do tipo "você é uma pessoa ponderada, mas é perigoso provocá-la além do seu limite" ou "Você trabalha duro mas tende a se acomodar um pouco em certas situações, e por isso tem um potencial ainda inexplorado" ou ainda "sua vida amorosa teve momentos de tensão no último ano" parecem conter informação individualizada e, até, valiosa -- mas, na verdade, aplicam-se a praticamente qualquer um.


Somando-se a isso há o fato de que astrólogos que prestam consultas pessoalmente muitas vezes são pessoas de grande sensibilidade -- inteligentes, capazes de avaliar os medos e angústias de quem as consulta com uma boa chance de sucesso -- e, portanto, aptas a oferecer bons conselhos e razoável apoio psicológico. Mas, se fazem isso, não é por causa da astrologia, mas a despeito dela: não fazem nada que um bom amigo ou um ouvinte atento e interessado não poderia fazer, e certamente oferecem muito menos que um psicólogo profissional.