sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Neste dia, há 504 anos...


Durante sua quarta viagem ao Novo Mundo, Cristóvão Colombo usou a previsão de um eclipse lunar para convencer nativos da Jamaica a não parar de alimentar a ele e a sua triçulação -- o navio dos europeus havia encalhado.

Um relato descreve o evento assim:

"...ele (Colombo) pediu aos chefes que participassem de uma reunião pouco antes do pôr-do-sol de 29 de fevereiro de 1504.

"Colombro abriu a reunião com uma advertência sombria: 'O Todo-Poderoso estava infeliz, não gostava da forma como os nativos vinham tratando Colombo e seus marinheiros. O Todo-Poderoso agora mostraria sua desaprovação, removendo a Lua do céu'"(...)

Sabe-se até o nome do almanaque astronômico que Colombo usou: Ephemeris, do matemático alemão Johannes Müller von Königsberg, ou Regiomontanus -- curiosamente, um geocentrista convicto.

Há várias lições importantes nesta pequena pérola histórica, mas fiquemos com esta: saber um pouco mais que a choldra ao redor, ter cara-de-pau e falar em nome do Todo-Poderoso são garantias de vários almoços grátis. Hoje, tanto quanto 500 anos atrás.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Qual a sua religião?

Saiu pesquisa nova do Pew Forum on Religion and Public Life dos EUA sobre a composição religiosa da população americana. Há alguns dados interessantes, como o de que o catolicismo e as testemunhas de jeová são as duas denominações que mais perdem fiéis, mas que as testemunhas conseguem um certo equlíbrio entre perdidos e ganhos, enquanto que os católicos seguem à míngua. Dez por cento da população dos EUA é composta de "ex-católicos". Se essa fosse uma categoria à parte, teria quase o mesmo número de aderentes que os evangélicos batistas!

Falando em comparações do tipo, é interessantre notar que ateus e agnósticos já são 4% da população, igual à soma de judeus, muçulmanos e mórmons -- os agnósticos, sozinhos, superam cada uma dessas três religiões com folga.

É importante chamar atenção para essas coisas porque boa parte do poder de pressão das religiões sobre a autoridade civil vem da ameaça velada de mobilização/manipulação das massas de fiéis ("quantas divisões tem esse papa?", como dizia o coroinha Josef Stálin) e -- aqui confesso um inelutável "wishful thinking" de minha parte -- cada vez mais desconfio que muito dessa ameaça, como a que paira sobre nossas cabeças na atual campanha da fraternidade, é puro blefe.

No Brasil, claro, não temos os números quebrados em agnósticos e ateus, mas apenas dos "sem religião" (que, com 7,4%, superam os espíritas, os cultos afro e muitos mais):



Dizem que o IBGE é extremamente teimoso quanto a não perguntar se as pessoas acreditam em Deus. Vá lá saber por quê. De repente, tem medo da resposta.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Alguém podia explicar pra esse cara...

CIDADE DO VATICANO (EFE) - O papa Bento XVI disse neste sábado, 23, em sua mensagem aos fiéis na Praça São Pedro, que educar "nunca foi fácil" e atualmente "parece ter ficado cada vez mais difícil" porque circulam "muitas" incertezas e dúvidas na sociedade.


Que incertezas e dúvidas não são um obstáculo, mas a base de qualquer processo educacional digno do nome?

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Sexo: a fronteira final?

Me pergunto por que certos pais se preocupam tanto com a vida exual dos filhos. Óquei, existe o risco de doenças e, claro, basta uma noitada adolescente irresponsável para o sujeito virar avô (ou avó) com uma ou mais boquinhas para sustentar.

Mas grupos como estes pais espanhóis, ou os americanos que pregam o voto de virgindade vão muito além da mera preocupação com os aspectos sanitários, econômicos ou (vá lá) psicológico-emocionais do sexo.

Uma leitura atenta do noticiário a respeito revela um aspecto perverso nessa história toda, encoberto (não muito bem encoberto, é verdade, já que até eu consegui notar) por toda a conversa sobre "valores" e "família": controle.

Um dos fatos mais interessantes sobre a assim chamada civilização ocidental é a constante redução do poder dos pais sobre os filhos: séculos atrás estava nas mãos do pai decidir a religião, a educação, a profissão, a opção sexual e o(a) parceiro(a) de cada filho(a).

Esse domínio total vem se corroendo, graças aos avanços do liberalismo, do laicismo e da sociedade de consumo (é, ela faz coisas legais de vez em quando).

Claro, quem como eu já teve de fazer uma viagem de duas horas de ônibus ao lado de uma menininha de cinco anos que berrava a plenos pulmões o repertório da Xuxa, para aplauso extasiado da mãe boçalizada, sabe que até a liberdade da juventude tem lá seus pontos negativos, mas não é disso que estou falando: os pais continuam a ter o dever de civilizar os filhos.

O que ocorre é que o poder que acompanhava esse dever vem sendo corroído. Nesse aspecto, a luta pelo controle da educação sexual parece ser uma espécie de última trincheira da velha visão do filho como um reflexo e produto do pai, em oposição a um ser humano ainda não autônomo, mas capaz de autonomia.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Um átomo de cada vez



Quantos anjos podem dançar na cabeça de um alfinete? O que acontece com a alma das criancinhas que morrem antes de ser batizadas (e que são 80% de todas as almas, de levarmos a sério o papo de que cada óvulo fertilizado é uma pessoa)? Como explicar metafisicamente que uma coisa que tem cara de biscoito, gosto de biscoito, composição química de biscoito é, na verdade, carne humana?

Passo. A questão mais interessante de todas é: quanta força é necessária paramover um único átomo? A resposta está na edição desta semana da revista Science, e é descrita no jornal The New York Times.

A resposta parece depender do substrato onde o átomo está, mas é, no mínimo, de 4,45 x 10^-8 newton ou a força necessária pra erguer uma massa de 4,45 x 10^-9 kg (4,5 MICROgramas --corrigido: eu tinha escrito "pico") no campo gravitacional terrestre.

(Físicos e engenheiros, corrijam-me se eu estiver errado: sou apenas moderadamente competente nessas coisas)

Não só o experimento que determinou esse dado é de uma beleza ímpar, não só o resultado tem uma importância enorme no campo da nanotecnologia, como o conceito é vertiginoso: seres humanos conseguiram deslocar um único átomo, uma entidade cuja simples existência foi polêmica por milênios.

E ainda há quem prefira contemplar a imagem da Virgem ou o Óleo Sagrado das Oliveiras de Judá ou whatever.

Fazer o quê?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

IURD contra a FSP

Não há muito a dizer sobre a avalanche de processos de fiéis da Igreja Universal contra a Folha de São Paulo além do que já foi dito e notado por muita gente, exceto perguntar exatamente como o Paulo Henrique Amorim se meteu nessa e destacar, mais uma vez, o argumento central deste blog:

A noção de que alguém se dizer (ou mesmo, de fato, se sentir) ofendido por algo dá à tal parte ofendida algum tipo de direito ou reivindicação especial, para além da prerrogativa óbvia de responder à ofensa, é uma idéia cretina que vai acabar estrangulando toda e qualquer liberdade de debate e expressão.

Se alguém chama você de "feio", responda "bobo". Chamar a tia é sacanagem.

Taleban brasileiro em marcha


Como era mesmo aquele versinho? Primeiro pisaram nas flores, depois arrombaram a porta, no fim botaram minha mulher numa burka? O cristianismo pode não ter, em geral, um dress code tão rígido quanto o Taleban, mas o apetite pelos direitos e liberdades individuais parece bem semelhante.

Senão, vejamos duas notícias quentinhas:

APARECIDA, SP (AE) - Durante os 40 dias da Quaresma, período estipulado pela Igreja Católica entre o carnaval e a Páscoa, os bailes populares realizados em praça pública estão proibidos em Aparecida, no Vale do Paraíba (SP). A proibição partiu do prefeito José Luiz Rodrigues (DEM), mais conhecido como Zé Louquinho, que alegou ser este um período de reflexão e não de diversão. "Jesus morreu por nós, fez o maior sacrifício, então não custa nada fazer esse sacrifício por Deus." Católico, devoto de Nossa Senhora Aparecida, Zé Louquinho afirmou não acreditar que esta medida seja impopular.


JUNDIAí, SP (BOM DIA) - Vereadores de Jundiaí se mostraram favoráveis, ontem, a proibir a distribuição gratuita das chamadas pílulas do dia seguinte nas UBS (Unidades Básicas de Saúde) do município. A posição foi demonstrada durante a segunda sessão do ano na Câmara, marcada pela presença do bispo dom Gil Antônio Moreira e pela discussão sobre a distribuição gratuita do medicamento. O bispo foi à Câmara para anunciar a Campanha da Fraternidade deste ano, que tem como tema “Fraternidade e Defesa da Vida.”

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Mais do que o total desprezo pelo mínimo de decoro que seria de se esperar de representantes de um Estado laico perante supostos "imperativos" religiosos, o que chama a atenção nesses casos é o conteúdo demagógico: em cidades de maioria católica, os políticos dançam conforme a música.

Alguém poderia até achar a coisa toda muito democrática, mas o fato é que democracia não é obediência cega à maioria (isso se chama, com mais propriedade, "coragem em números", ou simplesmente fascismo).

Democracia significa respeito pelos direitos do indivíduo. Se a maioria tem alguma autoridade, isso ocorre porque representa uma soma de indivíduos - e, portanto, a base moral e lógica dessa autoridade desaparece no momento exato em a que a turba se volta contra as garantias individuais.

Se coisas assim não ficarem bem claras, e logo, correremos o risco de chegar a uma situação como esta, apenas com o tipo de "fundamentalismo" trocado. O Afeganistão ainda não é aqui.

Ah, sim: a imagem que ilustra esta postagem é a de um dos Budas de Bamiyan, demolidos por você-sabe-quem em 2001.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Celibato

Esta notícia me pôs a pensar no motivo por trás da recusa teimosa da igreja católica em aceitar o fim do celibato dos padres. A velha explicação medieval - para evitar a transmissão de direitos hereditários - não parece fazer muito sentido no mundo moderno, afinal.

No fim, ocorreu-me: padres casados ou serão condenados a ter 50 filhos e a matar suas mulheres de exaustão, ou precisarão usar camisinha (ou pílula, ou vasectomia, ou laqueadura, ou aborto...).

Nem o Vaticano, acho, seria capaz de engolir tanta hipocrisia.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

‘Formas de saber’

Durante a Idade Média, discos de cera, chamados Agnus Dei, benzidos pelo papa, eram vistos como poderosos amuletos contra raios e trovões. Sinos de igrejas também eram abençoados para que seu repicar afastasse as tormentas.

A despeito de relíquias e sinos bentos, a torre da catedral de San Marco, em Veneza, foi destruída por relâmpagos em 1388, 1417, 1489, 1548, 1565, 1653, 1745, 1761 e 1762. O problema desapareceu em 1766, quando, 14 anos após a invenção de Benjamin Franklin, instalou-se um pára-raios no local.

Já a idéia de que a Terra gira em torno do Sol foi combatida por três papas: Paulo V e Urbano VIII, que perseguiram Galileu, e Alexandre VII, que assinou, em 1664, uma bula proibindo os católicos de ler “todos os livros ensinando o movimento da Terra e a estabilidade do Sol”. A medida só foi revogada em 1835, quase 200 anos mais tarde.

Quase 200 depois, ainda há quem apareça pedindo respeito à religião como “forma de saber”. Perguntinha besta: saber o quê?

domingo, 17 de fevereiro de 2008

News of the World

Para animar o fim de semana, um pout-pourri qpra confirmar mais uma das teorias de Einstein -- no caso, a de que a única coisa infinita que há é a estupidez humana:


MULHER É CONDENADA À PENA DE MORTE POR BRUXARIA NA ARÁBIA SAUDITA

DUBAI, 14 FEV (ANSA) - A organização de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch pediu ao rei Abdullah, da Arábia Saudita, que suspenda a execução de uma mulher condenada à morte no país, acusada de bruxaria.


"O rei Abdullah deve suspender a execução de Fawza Falih e anular sua condenação por bruxaria", escreveu a organização humanitária em uma carta enviada ao soberano do país ultraconservador que segue rigidamente a sharia, a lei muçulmana.


A organização declarou que a polícia religiosa que prendeu e interrogou a mulher e os juízes que a julgaram "não lhe deram em nenhum momento a possibilidade de provar sua inocência contra acusações absurdas".


Fawza foi presa em maio de 2005 e condenada à morte em abril de 2006, por "suposto crime de bruxaria, recurso ao demônio e sacrifício" de animais, segundo informou a Human Rights Watch.


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VATICANO COMEMORA 150 ANOS DA APARIÇÃO DE LOURDES

CIDADE DO VATICANO, 11 FEV (ANSA) - Para festejar os 150 anos da aparição de Lourdes, uma procissão percorreu a Via da Conciliação, que une Roma ao Vaticano, até a Basílica de São Pedro para ali depositar uma costela de Bernardette Sobirous, a garota que aos 14 anos disse ter visto e falado com a Virgem Maria na aldeia francesa de Lourdes.

A aparição, que aconteceu na gruta de Massabielle, vizinha à aldeia, transformou Lourdes no santuário mariano (dedicado à Virgem Maria) mais conhecido e freqüentado do mundo.


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POLÍCIA SAUDITA PROÍBE ROSAS VERMELHAS

RIAD - A Mutawa, polícia religiosa da Arábia Saudita, advertiu os muçulmanos para que não celebrem o Dia de São Valentim - 14 de fevereiro, festejado como Dia dos Namorados no hemisfério Norte - porque se trata de uma festa "imoral" e "não-islâmica".

A Mutawa, cujo nome oficial é Comissão para Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, divulgou seu posicionamento em comunicado distribuído em Riad, poucos dias depois de proibir a venda de rosas vermelhas no país árabe.

A polícia religiosa tem cerca de 5.000 homens, que andam à paisana, e é muito influente no país.

"Tomaremos todas as medidas para proteger os valores religiosos", disse a nota

Humanos em manadas




Estudo da Universidade de Leeds mostra que 5% dos compnenetes de uma multidão são capazes de determinar a direção do movimento da massa -- o restante das pessoas segue sem se dar conta. Artigo comentando o trabalho, publicado no Science Daily, sugere o uso desse dado no controle de multidões durante desastres.


Eu, confessando-me culpado do pecado intelectual de -- possivelmente -- generalizar um resultado científico para além do universo estudado, me pergunto que conseqüências esse efeito pode ter em, digamos, filas de coleta de templos religiosos ou grandes missas campais...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

E viva a Wikipedia! (em inglês)


Cortesia é uma coisa engraçada: começa sendo um gesto espontâneo de quem a oferece, algo inesperado que quem recebe tem, de certa forma, a obrigação de agradecer. De repente, vira (ou parece virar) direito adquirido.
Caso em tela: a pressão de fiéis islâmicos pela supressão das imagens de maomé do verbete correspondente na Wikipedia em inglês.
Uma das manifestações diz que "ninguém tem o direito de ofender milhões de muçulmanos". Não vou nem entrar no mérito de se é verdade que "milhões de muçulmanos" se ofendem com a apresentação de ícones do profeta. O que realmente chama a atenção é o "ninguém tem o direito de ofender...". Então, tá. O Alcorão diz que Jesus não foi crucificado, que foi um "laranja" quem morreu na cruz. Isso é, suponho, ofensivo para milhões de cristãos.
Como ninguém tem o direito de ofender milhões de {{insira aqui seu grupo demográfico preferido}}, concluímos que é preciso editar o Alcorão. Ou talvez queimar todos os exemplares.
Dizer que uma pessoa/grupo tem uma queixa legítima só porque algo a/o ofende pode ser algo que até começou com a melhor das intenções, como forma de coibir humilhações racistas e coisas do gênero, mas olha aonde o precedente nos trouxe.
"Ofender o próximo" deveria virar um direito humano.

Pelo menos, ele não pecou usando camisinha...

FORT WORTH, Texas - Um padre acusado de abusar sexualmente de crianças em dois Estados americanos é HIV positivo, disseram autoridades da diocese católica de Fort Worth. (AP)

Em um complemento irônico, temos ainda:

INDAIATUBA, SP - O cardeal d. Cláudio Hummes, prefeito da Congregação para o Clero, um dos principais órgãos da Cúria Romana, afirmou ontem que os problemas de desvios e abusos na conduta moral-sexual, especialmente "o mais grave deles, o da pedofilia", são superdimensionados pela mídia, pois atingem uma parcela mínima de padres (...) - José Maria Mayrink, Estadão

(O que D. Claúdio convenientemente "esquece" de comentar são os sucessivos casos de acobertamento de abusos sexuais cometidos por padres pela hierarquia, a complacência com que os clérigos crimonosos são tratados, a tendência a criminalizar as vítimas... Aliás, se, como o próprio D. Cláudio diz, a proporção de padres pedófilos "não chegam a 1%" e há 18 mil padres no Brasil, onde estão presos os cerca de 180 padres criminosos brasileiros? Ou estarão à solta?)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Wikipédia pt: saudações?

A Wikipédia em português decidiu eliminar o verbete sobre a ONG Brasil para Todos (BpT). A organização, que conta com vários apoios de peso e um ativismo invejável, defende a retirada de símbolos religiosos de tribunais e demais repartições públicas.

A eliminação está repercutindo em vários fóruns online de debate do racionalismo e da separação entre igreja e estado, além de trazer à tona manifestações inconformadas de entusiastas e simpatiantes do BpT. Mas é preciso pôr a questão, creio, em perspectiva.

O fato principal disso é que quem perde, com a eliminação, não é o BpT (que continua com site próprio no ar, acessível via Google) mas os usuários da Wikipédia. Concorde-se ou não com a proposta da ONG, o fato é que ela fez um barulho razoável nas cortes de Justiça recentemente, e quem se sentir curioso a respeito não encontrará informações na enciclopédia em português. Uma falha (da enciclopédia).

Quem mais perde, em segundo lugar, são os opositores da causa da separação, que poderiam apresentar seus argumentos dentro do verbete -- que, ao contrário do site oficial da ONG, tenderia naturalmente a desenvolver uma posição neutra sobre o assunto.

E quem mais perde, em terceiro lugar, é a própria Wikipédia.pt, que deixa de servir ao usuário como deveria e, pior, põe sua reputação -- como fonte/filtro, de informação e como seguidora do "espírito wiki" -- em jogo.

Sociedades civis imaturas tendem a ver seus canais de participação pública "colonizados" por panelinhas e grupos de interesse organizados (militantes de esquerda em conselhos municipais de saúde e orçamento, católicos fervorosos em conselhos de bioética, criacionsitas em conselhos de educação).

Faz parte da dinâmica: os setores até então desorganizados da sociedade que se ressentem dessa colonização tendem a se organizar e contra-atacar. Quando isso não ocorre, ou quando a panelinha original segue incólume, a tendência passa a ser a de a instância dominada tornar-se irrelevante -- mais ou menos como um grupo de escritores que não publica nada, mas que só trocam elogios entre si.

Vai ver, desejar que a Wikipédia.pt pulasse essa fase fosse, mesmo, querer demais.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Base de Kourou

Lula podia aproveitar sua visita à Guiana Francesa e, além de pedir a Nicholas Sarkozy que lhe recomende um bom alfaiate, tentar aprender como se faz um programa espacial de gente grande.



A imagem acima é do centro espacial de Kourou, a mais avançada base de lançamentos da América do Sul, e fica lá na Guiana, embora o território brasileiro tenha vantagens geográficas muito maiores para esse tipo de atividade.

De Kourou vai partir o ATV, um novo tipo de cargueiro espacial projetado pela Agência Espacial Européia (ESA) para complementar as naves russas Progress que abastecem a Estação Espacial Internacional.

Enquanto isso, em Alcântara...


E viva a Dinamarca!

Merece aplauso a notícia de que os principais jornais dinamarqueses republicaram um cartum de Maomé, em resposta à descoberta um um plano para assassinar o autor do desenho. É bom ver que ainda há animais vertebrados no mundo ocidental, apesar de tudo.

Comentei, numa postagem anterior, que é errado imaginar que uma religião (ou, vá lá, uma cultura) tenha direitos.

Explicitando um pouco o argumento: todo "direito" dado a uma cultura só pode ser exercido contra os indivíduos que fazem parte dela -- o direito dos aborígenes siberianos de acreditar que o canto de um passarinho cura dor de dente, digamos, só pode ser pereservado mantendo-se boa parte dessa população aborígene com sérios problemas odontológicos -- ou contra seus críticos, externos ou internos; o que caracteriza censura.

Expandindo um pouco o lema deste blog: pessoas têm direitos; culturas, não.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Observando Marte

Deixando o obscurantismo um pouco de lado, só para variar:





A Universidade do Arizona criou um sistema online com todas as imagens de Marte já dipsonibilizadas ao público, desde os tempos das sondas Viking. O site é este aqui: http://global-data.mars.asu.edu/ .



A imagem acima veio de lá e é, se não me engano, Olympus Mons, o maior vulcão do sistema solar. Foi feita pela minha xará Moc - no caso, Mars Orbiter Camera.

Back to the Middle Ages...

O inferno é um lugar real e não está vazio, diz Bento XVI, melando uma tentativa de João Paulo II de sofisticar um pouco o conceito. O pontífice falecido afirmara que inforno era uma "condição" e não um "lugar".

Nem vou comentar a facilidade com que teólogos em geral trafegam entre a metáfora eo sentido literal das palavras, numa contínua de prestidigitação retórica que lhes permite afirmar qualquer coisa e seu posto e não serem acusados de contradição.

Às vezes isso parece uma mistura de desonestidade intelectual com covardia pura e simples (teólogos que faziam afirmações categóricas, como Santo Agostinho, que negava, com base nas Escrituras, a possibilidade de haver vida humana no lado da Terra oposto à Palestina, saíram de moda por razões óbvias) mas dizem-me que , na verdade, o discurso teológico contemporâneo é feito de sutilezas que escapam a espíritos mesquinhos como o meu.

Que seja...

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Cartões corporativos do governo

Óquei, óquei, sei que política não é o assunto principal deste blog, mas não dá para deixar de comentar a idéia, que circulou no governo, de acabar com o acesso dos ministros aos cartões de crédito cujas despesas são debitadas no erário.

Questão: não seria mais fácil nomear ministros honestos?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Sharia britânica

Mal o mês começou, eis o Prêmio Idéia Cretina de fevereiro: a adoção de partes da sharia, ou lei tradicional islâmica, para resolução de disputas entre muçulmanos no Reino Unido -- proposta, nada mais e nada menos, pelo arcebispo de Canterbury, Rowan Williams.

O arcebispo, que ficou famoso (ou infame) no mundo não-anglicano ao meter os pés pelas mãos para tentar explicar como um "deus bom" poderia ter permitido o grande tsunami de 2004 na Ásia, se apressou em dizer que não está sugerindo uma importação de normas como a lapidação de adúlteras ou a flagelação de homossexuais, mas apenas que cidadãos britânicos de origem islâmica possam resolver seus problemas de acordo com normas (para eles) tradicionais.

Agora, é fato que nada, obviamente, impede que dois muçulmanos que tenham uma pendenga entre si decidam, de comum acordo, arbitrar a diferença pela sharia em vez de procurar os tribunais (a menos, claro, que a solução envolva uma violação da lei do Estado); então, o que Williams está propondo, exatamente? Que muçulmanos sejam impedidos de recorrer aos tribunais seculares, caso uma dsputa seja arbitrada pelo emir/mulá/ancião/ulemá/whatever?

A coisa toda soa como mais um ataque racista disfarçado de multiculturalismo: vamos deixar os bárbaros cuidar das coisas deles lá do jeito deles, e pronto.

Mas há algo ainda mais insidioso na proposta: a idéia de que religiões têm direitos. De que a comunidade islâmica (anglicana, católica, budista, tc.) teria o direito de impor suas normas a indivíduos que tenham nascido dentro dela. De que, de algum modo, a religião é proprietária legítima dos filhos e filhas de seus fiéis.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Depois da fé, má-fé

Já postei anteriormente sobre a Campanha da Fraternidade deste ano, mas não dá para deixar de notar a má-fé com que a igreja tenta disfarçar uma posição dogmática doutrinária sua -- e que, portanto, não caberia num debate de políticas públicas de nenhum outro lugar além do Vaticano -- em uma questão "científica" e "jurídica".

Citando o cardeal d. Odilo Scherer: "A inviolabilidade da vida humana é definida pela Constituição brasileira e pela Organização das Nações Unidas". Ou, mais adiante: falando sobre pesquisas com células-tronco embrionárias, d. Odilo argumenta que, "sendo um ser humano, o embrião não pode ser sacrificado, porque a vida humana não é um bem utilizável".

Afirmações do tipo, claro, cometem a clássica falácia de petitio principii: assume como já estabelecido um fato que ainda é preciso provar. No caso, que (a) o direito humano à vida se aplica a bolotas micrscópicas de células sem sentimento ou consciência e (b) que esse direito, caso exista nessas condições, se sobrepõe à liberdade da mulher (caso do aborto) e/ou à saúde das pessoas que poderiam se beneficiar com as pesquisas de células-tronco .

Essas duas posições são altamente problemáticas, no entanto, e ao fingir que os problemas não existem, a hierarquia católica age com ampla desonestidade intelectual. Alguns desses problemas eu já discuti em postagens anteriores, como esta.

Para que não achem que estou muito auto-referenciado hoje, menciono outros problemas que são levantados por Richard Dawkins em O Capelão do Diabo. Por exemplo, o fato de que a placenta é um clone do embrião -- logo deveria ter os mesmos "direitos" dele -- e de que culturas de células cancerosas humanas mantidas em laboratório seriam, pela definição pseudo-científica católica, "seres humanos" também.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Em seu ótimo livro Dúvida - uma história, Jennifer Michael Hetch nota que a idéia de que a crença, ou mais precisamente, a - a crença a despeito de, ou contra a, evidência e a razão - é uma virtude salvadora é uma invenção cristã, que surge nos Evangelhos (aliás, assim como a idéia de uma eternidade de sofrimento no inferno: dizem que Jesus era um sujeito manso e compreensivo, mas uma leitura atenta das Escrituras sugere mais um tipo bipolar).

Entre os pagãos politeístas, sustenta o argumento de Hetch, o que se esperava dos fiéis era obediência ao ritual: fazer determinadas propiciações em determindas épocas e do modo correto. Já entre os henoteístas hebreus o importante era a obediência à Lei -- você podia não acreditar em YHWH, desde que não tomasse seu santo nome em vão, não comesse porco ou moluscos e tivesse a genitália aparada de modo conveniente.

Para mim, só essa inovação filosófica -- transformar crença numa virtude suprema, no núcleo da vida religiosa e na chave-mestra da salvação -- é um desastre que assoma por cima de todos os supostos benefícios que se costumam atribuir ao cristianismo.

Não só por se tratar de uma fonte de tortura mental (acreditar nisso ou naquilo, afinal, não é um ato de vontade), mas porque a transformação da fé cega em virtude tem o efeito simétrico de converter o senso crítico em vício.

E é daí que nasceram, não só os fanatismos religiosos de ontem e de hoje, mas também os messianismos seculares de Pol Pot, Mao, Guevara e outros.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Carnaval em Marte

A imagem abaixo foi feita pela sonda MRO, na Nasa, em 28 de janeiro, cortesia do blog da Planetary Society:
É bom saber que alguém, neste sistema solar, parece estar se divertindo com alguma coisa...

Lá vem campanha da fraternidade...

Depois do carnaval virá o massacre de mídia da nova Campanha da Fraternidade da CNBB. Desta vez, com o tema "Escolhe, pois, a vida", a hierarquia católica brasileira volta suas baterias contra o direito ao aborto, a reprodução assistida e as pesquisas com células-tronco embrionárias.

A teologia tem um longo histórico de achar que dá para redefinir a realidade redefinindo termos (o dogma da transubstanciação é um caso clássico). Veremos isso novamente agora, com a defesa da idéia de que pessoas devem morrer para que embriões de 150 células possam ser "salvos" sendo chamada, na cara dura, de "Defesa da Vida". Ei, uma mulher até já foi canonizada por preferir a morte ao borto.

Uma manobra muito usada por quem se opõe ao direito da mulher de interromper a gravidez, aliás, é omitir as palavras “direito a” da formulação do problema.

Assim, quem é a favor do direito de a gestante optar pelo aborto vira “a favor do aborto” (ou “abortista”), expressão que evoca a imagem de um psicopata que chuta grávidas na barriga e solta gargalhadas sinistras.

Caricatura grosseira que oculta parte importante da questão: a autonomia da mulher.

Algum tempo atrás, foi derrubada no Brasil norma que tornava automática a doação de órgãos. Mesmo sabendo que a recusa em doar poderia levar à morte de uma criança ou de um adulto – indiscutivelmente uma pessoa, ao contrário do embrião, cujo status ainda é alvo de disputas filosóficas – considerou-se que cada um é dono do próprio corpo.

Ao manter o aborto proibido em lei, o que se faz é negar às mulheres vivas uma escolha que, no fim, até os mortos têm.

Pois a questão é de escolha. Como diz um slogan feminista britânico: “Escolhi ter meu filho, mas foi bom ter podido escolher”.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Viradouro e o Holocausto


A idéia de pôr na avenida um carro algórico sobre o Holocausto dos judeus pelos nazistas é de uma insensibilidade e de um mau-gosto hediondos.

Mas, pior ainda, é a idéia de proibir essa exibição por via judicial.

Explico: trata-se, ao fim e ao cabo, da censura de uma obra de arte. Trata-se de usar o poder do Estado para impor a sensibilidade e o conceito de bom-gosto de uma parte da população a outra.

Existem muitas outras formas de condenar uma obra de arte -- pode-se atacá-la, criticá-la, ignorá-la, expô-la pelo que de fato é (ou pelo que o crítico acredita que de fato seja).

Mas, proibi-la?

Quem procurou o Judiciário para embargar o carro alegórico parece ter se esquecido de que a liberdade de expressão tem um preço, que é a tolerância com a pornografia, o ofensivo e o de mau-gosto, ou concluiu que não está disposto a pagá-lo.

Seja o que for, é um caso clássico de plantar vento na esperança de que não se venha a colher tempestades no futuro.

A ver veremos.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

'Mercantilização do sexo'

Lá vem o carnaval e, com ele, as campanhas do governo para distribuição de camisinhas e pílulas. é de se louvar o forte posicionamento das autoridades contra a costumeira chantagem católica, mas questiono um pouco a oportunidade dessas campanhas: não que o carnaval não seja uma festa promíscua, ms será que o restante do ano é realmente menos promíscuo? Se alguém souber de pesquisas a respeito, agradeço.

Defensores das ressalvas da igreja à distribuição de anticoncepcionais queixam-se de que o governo estaria estimulando a "mercantilização do sexo". Me pergunto, exatamente, o que se quer dizer com isso: ninguém é obrigado a cair na gandaia -- mas quem quiser deve ter o direito de fazê-lo de forma saudável garantido, como quem quiser viajar para as matas do Mato Grosso deve ter acesso à vacina contra febre amarela.

O que os conservadores realmente querem é impor uma moral sexual que deveria ser, simplesmente, uma questão de gosto pessoal -- baseada em abstinência-fidelidade-reprodução -- por meio do terror: o medo da gravidez, o medo da doença.