Fora a questão teológica de por que Deus, sadicamente, permite que a maior parte da população mundial nasça numa cultura já condenada ao inferno (uma vez que não há salvação fora da fé em Cristo), a notícia de que o total de muçulmanos supera o de católicos chama atenção pelo parágrafo final:
A porcentagem de muçulmanos vem aumentando por causa da alta taxa de natalidade neste grupo.
Ou seja: de novo, trata-se a criança como propriedade inalienável da religião dos pais. E ninguém vê nada de errado nisso...
segunda-feira, 31 de março de 2008
sexta-feira, 28 de março de 2008
A prova de Deus
Parte da mídia -- principalmente veículos declaradamente cristãos, mas destcando-se ainda a revista IstoÉ -- está vendendo o trabalho do padre-cosmólogo Michael Keller como sendo a prova científica da existência de Deus. Keller ganhou o prêmio Templeton, dado a cientistas que façam uma "aproximação" entre ciência e religião.
No entanto, a "prova" de Keller, tal como vem sendo descrita, não passa de mais um exercício do bom e velho argumento do "Deus das lacunas": se não sei o que é, é Deus. Essa manobra só faz trocar "ignorância" por uma palavra de quatro letras, o que é útil para tipógrafos e quase ninguém mais.
O curioso é que provar cientificamente a existência de deus não deveria ser difícil -- se houvesse um Deus. Trata-se de formular uma hipótese, digamos, como "fusão nuclar é o que faz o sol arder", só que dizendo "Deus é o que faz o universo existir".
Claro, a hipótese fusão-sol já foi testada e largamente comprovada, até o ponto de terem sido encontrados os neutrinos que faltavam. Já a hipótese Deus-universo... bem... sabe como é...
Este, na verdade, é um dos grandes problemas filosóficos contemporâneos do teísmo, superando até a teodicéia (a conciliação entre a existênciade Deus e a presença de mal no mundo): a ocultação divina.
Resumindo: se Deus exsite, como é possível que haja gente que não acredita nele?
A resposta clássica, a da "liberdade de escolha", não cola: qual o sentido de dizer, por exemplo, que "sou livre" para não acreditar em árvores, ou pássaros? Eles estão aí, afinal. São evidentes.
Por que Deus não é?
Uma questão correlata é o papel da mídia "mainstream" (onde IstoÉ, supõe-se, está ou quer estar) na divulgação de asneiras como a suposta "prova" atribuída a Keller, ou terapias de vidas passadas.
Isso parece ser um reflexo do que chamo de isonomia preguiçosa: para se libertar do velho vício de engolir pataquadas católicas com linha, anzol e tudo, ao mesmo tempo em que submetia outros sistemas mitológicos a escrutínio racional, o jornalismo brasileiro decidiu suspender de vez o escrutínio racional em todas as áreas.
Fica mais justo assim. E dá menos trabalho.
No entanto, a "prova" de Keller, tal como vem sendo descrita, não passa de mais um exercício do bom e velho argumento do "Deus das lacunas": se não sei o que é, é Deus. Essa manobra só faz trocar "ignorância" por uma palavra de quatro letras, o que é útil para tipógrafos e quase ninguém mais.
O curioso é que provar cientificamente a existência de deus não deveria ser difícil -- se houvesse um Deus. Trata-se de formular uma hipótese, digamos, como "fusão nuclar é o que faz o sol arder", só que dizendo "Deus é o que faz o universo existir".
Claro, a hipótese fusão-sol já foi testada e largamente comprovada, até o ponto de terem sido encontrados os neutrinos que faltavam. Já a hipótese Deus-universo... bem... sabe como é...
Este, na verdade, é um dos grandes problemas filosóficos contemporâneos do teísmo, superando até a teodicéia (a conciliação entre a existênciade Deus e a presença de mal no mundo): a ocultação divina.
Resumindo: se Deus exsite, como é possível que haja gente que não acredita nele?
A resposta clássica, a da "liberdade de escolha", não cola: qual o sentido de dizer, por exemplo, que "sou livre" para não acreditar em árvores, ou pássaros? Eles estão aí, afinal. São evidentes.
Por que Deus não é?
***
Uma questão correlata é o papel da mídia "mainstream" (onde IstoÉ, supõe-se, está ou quer estar) na divulgação de asneiras como a suposta "prova" atribuída a Keller, ou terapias de vidas passadas.
Isso parece ser um reflexo do que chamo de isonomia preguiçosa: para se libertar do velho vício de engolir pataquadas católicas com linha, anzol e tudo, ao mesmo tempo em que submetia outros sistemas mitológicos a escrutínio racional, o jornalismo brasileiro decidiu suspender de vez o escrutínio racional em todas as áreas.
Fica mais justo assim. E dá menos trabalho.
terça-feira, 25 de março de 2008
Ressurreição
Como o Natal, a Páscoa é apenas mais uma festa pagã seqüestrada pelo cristianismo - no caso, o festival de fertilidade da primavera - no velho espírito de, e não pode vencê-los, coopte-os. Uma boa sátira à evolução desses rituais aparece no excelente romance de Philip José Farmer, Flesh, que recomendo a todos.
Mas, se me perdoam um pouco de reminiscência autobiográfica, foi esse papo de ressurreição de Cristo que causou alguns dos primeiros abalos no meu catolicismo hereditário-congênito. Foi durante um sermão no qual o padre citou a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (cap 15, v 14): "se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé."
Peraí, pensei eu, do alto de minha sapiência de 12 anos de idade. Então, se um cara que tivesse dito 'sacaneai-vos uns aos outros' tivesse ressuscitado, sacanear seria o certo?
Na época eu não tinha o vocabulário ou a instrução filosófica necessária para reconhecer exatamente o que estava acontecendo, mas foi graças a 1Cor. que me deparei com o velho paradoxo de Platão: os deuses amam as coisas que são corretas porque são corretas ou as coisas são corretas porque os deuses as amam?
A idéia de religião como uma forma abjeta de puxassaquismo metafísico começava a tomar forma em minha mente juvenil.
Décadas mais tarde, descobri que o mais antigo dos Evangelhos e o mais próximo às fontes históricas originais, o de Marcos, embora fale em ressurreição, não cita nenhum feito ou aparição do Cristo ressucitado. O texto original de Marcos termina no versículo 8 do capítulo 16, com as mulheres fugindo da tumba vazia: "Elas saíram do sepulcro e fugiram trêmulas e amedrontadas. E a ninguém disseram coisa alguma por causa do medo."
Mas, se me perdoam um pouco de reminiscência autobiográfica, foi esse papo de ressurreição de Cristo que causou alguns dos primeiros abalos no meu catolicismo hereditário-congênito. Foi durante um sermão no qual o padre citou a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios (cap 15, v 14): "se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé."
Peraí, pensei eu, do alto de minha sapiência de 12 anos de idade. Então, se um cara que tivesse dito 'sacaneai-vos uns aos outros' tivesse ressuscitado, sacanear seria o certo?
Na época eu não tinha o vocabulário ou a instrução filosófica necessária para reconhecer exatamente o que estava acontecendo, mas foi graças a 1Cor. que me deparei com o velho paradoxo de Platão: os deuses amam as coisas que são corretas porque são corretas ou as coisas são corretas porque os deuses as amam?
A idéia de religião como uma forma abjeta de puxassaquismo metafísico começava a tomar forma em minha mente juvenil.
Décadas mais tarde, descobri que o mais antigo dos Evangelhos e o mais próximo às fontes históricas originais, o de Marcos, embora fale em ressurreição, não cita nenhum feito ou aparição do Cristo ressucitado. O texto original de Marcos termina no versículo 8 do capítulo 16, com as mulheres fugindo da tumba vazia: "Elas saíram do sepulcro e fugiram trêmulas e amedrontadas. E a ninguém disseram coisa alguma por causa do medo."
sexta-feira, 21 de março de 2008
quarta-feira, 19 de março de 2008
Adeus ao Monolito
Foi-se Asimov, agora parte Clarke. Os dois grandes racionalistas da ficção científica do século 20 já não estão mais entre nós.
Ao contrário de Isaac Asimov, cuja obra de não-ficção é amplamente conhecida, os ensaios de Clarke não são muito famosos (com exceção, claro, do clássico "paper" em que ele sugere o uso de satélites geoestacionários para ajudar nas comunicações). O que é uma pena: seus artigos, por exemplo os reunidos em Greetings, Carbon-Based Bipeds, têm um sabor próprio.
Como escritor, Sir Arthur era criticado por não dar muita profundidade psicológica, social ou emocional aos personagens. Longe de ser um defeito, porém, essa característica dá aos pontos altos de sua obra, como Encontro com Rama, uma pureza fantástica -- o verdadeiro protagonista da obra de Clarke é o universo, suas leis, seus mistérios.
Ao contrário de Isaac Asimov, cuja obra de não-ficção é amplamente conhecida, os ensaios de Clarke não são muito famosos (com exceção, claro, do clássico "paper" em que ele sugere o uso de satélites geoestacionários para ajudar nas comunicações). O que é uma pena: seus artigos, por exemplo os reunidos em Greetings, Carbon-Based Bipeds, têm um sabor próprio.
Como escritor, Sir Arthur era criticado por não dar muita profundidade psicológica, social ou emocional aos personagens. Longe de ser um defeito, porém, essa característica dá aos pontos altos de sua obra, como Encontro com Rama, uma pureza fantástica -- o verdadeiro protagonista da obra de Clarke é o universo, suas leis, seus mistérios.
terça-feira, 18 de março de 2008
Desta vez, Templeton acerta...
A Fundação Templeton, que dá um prêmio generoso em dinheiro para cientistas que digam coisas bonitinhas sobre religião, finalmente acertou no alvo: premiou um cosmólogo que também é padre.
Não tenho credenciais para discutir a impotância da obra científica do padre Michael Heller, mas a faceta dessa obra que chamou a atenção do prêmio diz respeito à busca de uma "causa primeira" para o universo.
Mesmo imaginando por um instante que faça sentido falar em termos de uma "causa não causada", sempre fico espantado em ver como as pessoas saltam rapidamente desse ponto para a conclusão de que a tal "causa" quer que as pessoas se reúnam todos os domingos para comer biscoito e evitem gozar quando estão procriando, mas que jamais evitem procriar quando estão gozando.
Enfim...
Uma curiosidade nesse caso é lembrar que, até algumas décadas atrás, não era de todo implausível esperar que sacerdotes católicos prestassem bons serviços às ciências. Em que pese a fulminante crítica de Peter Medawar à obra filosófica de Teilhard de Chardin ("há um argumento nela, só não consigo descobrir qual"), o jesuíta colheu alguns merecidos louros como paleontólogo.
(Certo, ele também esteve envolvido no caso do Homem de Piltdown, eu sei...).
Padres-cientistas já foram quase que um lugar-comum, por exemplo, na ficção científica. Dois casos clássicos são os do conto "A Estrela", de Arthur C. Clarke, e "Um Caso de Consciência", de James Blish.
Ambas as histórias, no entanto, lidam com o tema da tensão entre verdade e fé em escala cósmica; no mundo real, a tensão simplesmente se tornou grande demais e a ruptura veio, mas não por causa de descobertas na escala de estrelas e planetas, e sim em células e gametas.
Não tenho credenciais para discutir a impotância da obra científica do padre Michael Heller, mas a faceta dessa obra que chamou a atenção do prêmio diz respeito à busca de uma "causa primeira" para o universo.
Mesmo imaginando por um instante que faça sentido falar em termos de uma "causa não causada", sempre fico espantado em ver como as pessoas saltam rapidamente desse ponto para a conclusão de que a tal "causa" quer que as pessoas se reúnam todos os domingos para comer biscoito e evitem gozar quando estão procriando, mas que jamais evitem procriar quando estão gozando.
Enfim...
Uma curiosidade nesse caso é lembrar que, até algumas décadas atrás, não era de todo implausível esperar que sacerdotes católicos prestassem bons serviços às ciências. Em que pese a fulminante crítica de Peter Medawar à obra filosófica de Teilhard de Chardin ("há um argumento nela, só não consigo descobrir qual"), o jesuíta colheu alguns merecidos louros como paleontólogo.
(Certo, ele também esteve envolvido no caso do Homem de Piltdown, eu sei...).
Padres-cientistas já foram quase que um lugar-comum, por exemplo, na ficção científica. Dois casos clássicos são os do conto "A Estrela", de Arthur C. Clarke, e "Um Caso de Consciência", de James Blish.
Ambas as histórias, no entanto, lidam com o tema da tensão entre verdade e fé em escala cósmica; no mundo real, a tensão simplesmente se tornou grande demais e a ruptura veio, mas não por causa de descobertas na escala de estrelas e planetas, e sim em células e gametas.
sábado, 15 de março de 2008
Tentativa de homicídio?

Mais uma diretamente da coluna semanal de James Randi, a SWIFT: um feiticsiro indiano tentou usar seus poderes de magia negra para matar um cético na TV, ao vivo... E nada aconteceu.
Informes dão conta de que o "desafio" foi um estouro de audiência na Índia. Eis parte da descrição do show:
Neste momento, o tantrik (feiticeiro) escreveu o nome de Sanal (o cético) em um pedaço de papel, rasgou-o em pedacinhos, mergulhou-os num porte de manteiga fervente e arremessou-os, dramaticamente, nas chamas. Nada aconteceu.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Uma vela na escuridão

Não vi resenhas na grande imprensa (o que é curioso, já que a Cia das Letras é amiguinha da tchurma), mas eis que saiu no Brasil Variedades da Experiência Científica (queria fazer o link pra Livraria Cultura, mas o site deles tá uma lerdeza só hoje), de Carl Sagan. O livro é a transcrição de uma conferência de Sagan sobre ciência e religião e é, pra usar uma palavra só, brilhante.
O título é uma brincadeira com Variedades da Experiência Religiosa do filósofo e psicólogo americano William James. James esteve no pólo oposto a outro filósofo (e matemático), William Clifford, num debate sobre a ética da crença -- Clifford argumentava que acreditar em algo sem ter evidências é eticamente -- moralmente -- errado, porque toda ação humana nasce de uma crença, e se você acrdita em bobagem, vai acabar fazendo merda. Homens-bomba, alguém?
James, por seu lado, defendia o direito à crença, mesmo a crença em bobagens, como uma dimensão da liberdade humana e uma espécie de fenômeno estético.
A conferência de Sagan faz um belo trabalho de síntese entre esses pólos, apresentando com elegância a ciência como uma fonte de prazer estético e reflexão fisolófica muito superior à religião, ao mesmo tempo em que demole os argumentos mais freqüentes em defesa da existência Deus. Ele o faz com mais elegância (ou talvez fosse melhor dizer, paciência), mas não menos eficiência que Richard Dawkins em Deus, um Delírio.
Enfim. Carl Sagan morreu, Joseph Ratzinger continua firme e saudável. Quem sabe? Vai ver Deus existe, mesmo.
terça-feira, 11 de março de 2008
Criar pecados para vender perdões
Não sei se a mídia não andou fazendo uma certa confusão nessa história ne "novos pecados capitais", confundindo "capital" com "mortal", mas esse papo de inventar culpa pra vender absolvição é bem velho.
Trata-se, ao que tudo indica, de mais uma adaptação de truques antigos aos tempos modernos.
Trata-se, ao que tudo indica, de mais uma adaptação de truques antigos aos tempos modernos.
segunda-feira, 10 de março de 2008
'Vida' versus 'pessoa'
A melhor coisa no voto do ministro Carlos Ayres Britto no julgamento das células-tronco, na última quarta-feira, foi o modo minucioso com que ele desfez a desonesta confusão retórica criada pelos obscurantistas entre "pessoa humana" e "ser humano".
Uma "pessoa" tem direitos; um "ser" pode tê-los ou não.
Para ser mais claro: imagine uma máquina detectora de humanidade, uma caixa preta que realize testes biológicos e genéticos em qualquer coisa colocada em seu interior e acende uma luz verde quando a "coisa" é humana, e vermelha, quando não.
Coisas que farão a luz verde acender: gotas de saliva, fios de cabelo, flocos de caspa, aparas de unha.
Podese argumentar que o embrião humano é diferente dessas "coisas" porque ele tem o potencial do desenvolvimento pleno em uma pessoa humana.
Trata-se de um ponto discutível sob vários ângulos -- por exemplo, ser um brasileiro nato e maior de 35 anos, logo um presidente da República em potencial, não me dá o direito à proteção da Polícia Federal, como presidente de facto tem; e ainda: com o avanço da tecnologia, logo toda célula do corpo humano passará a ser um embrião em potencial -- mas um ponto que nem vem ao caso no debate que se trava no STF, já que os embriões em discussão lá são os congelados e abandonados pelos genitores.
Um bom modo de pensar sobre o assunto é conceber criaturas não-humanas mas que tenham direito à vida. Inteligências alienígenas, computadores conscientes, coisas assim. Ou criaturas humanas sem esse direito: a placenta, que é um clone do feto; ou um cadáver com morte cerebral. O simples fato de que é possível pensar nessas entidades hipotéticas mostra que a identidade biológica humana não é necessária ou suficiente para gerar direitos.
Requer-se algo além. Talvez seja, como diz o filósofo Peter Singer, a capacidade de sofrer. Talvez seja a capacidade de criar. Mas só ter os cromossomos certos obviamente não basta.
Uma "pessoa" tem direitos; um "ser" pode tê-los ou não.
Para ser mais claro: imagine uma máquina detectora de humanidade, uma caixa preta que realize testes biológicos e genéticos em qualquer coisa colocada em seu interior e acende uma luz verde quando a "coisa" é humana, e vermelha, quando não.
Coisas que farão a luz verde acender: gotas de saliva, fios de cabelo, flocos de caspa, aparas de unha.
Podese argumentar que o embrião humano é diferente dessas "coisas" porque ele tem o potencial do desenvolvimento pleno em uma pessoa humana.
Trata-se de um ponto discutível sob vários ângulos -- por exemplo, ser um brasileiro nato e maior de 35 anos, logo um presidente da República em potencial, não me dá o direito à proteção da Polícia Federal, como presidente de facto tem; e ainda: com o avanço da tecnologia, logo toda célula do corpo humano passará a ser um embrião em potencial -- mas um ponto que nem vem ao caso no debate que se trava no STF, já que os embriões em discussão lá são os congelados e abandonados pelos genitores.
Um bom modo de pensar sobre o assunto é conceber criaturas não-humanas mas que tenham direito à vida. Inteligências alienígenas, computadores conscientes, coisas assim. Ou criaturas humanas sem esse direito: a placenta, que é um clone do feto; ou um cadáver com morte cerebral. O simples fato de que é possível pensar nessas entidades hipotéticas mostra que a identidade biológica humana não é necessária ou suficiente para gerar direitos.
Requer-se algo além. Talvez seja, como diz o filósofo Peter Singer, a capacidade de sofrer. Talvez seja a capacidade de criar. Mas só ter os cromossomos certos obviamente não basta.
sexta-feira, 7 de março de 2008
Stigmata
Hoje James Randi abre sua excelente coluna semanal, SWIFT, com um comentário sobre a exumação de Padre Pio. Penitencio-me por ter deixado passar essa, já que a notícia correu dias atrás, inclusive aqui no Brasil.
Não há muito o que comentar, realmente, exceto notar a tendência universal das religiões de jogar o bom gosto e a honestidade intectuial no lixo sempre que conveniente, e lamentar a falta de observadores críticos quando supostos milagres "acontecem" aqui na Terra de Santa Cruz.
Não há muito o que comentar, realmente, exceto notar a tendência universal das religiões de jogar o bom gosto e a honestidade intectuial no lixo sempre que conveniente, e lamentar a falta de observadores críticos quando supostos milagres "acontecem" aqui na Terra de Santa Cruz.
Causa e efeito
Sabia que nenhum povo, por mais “primitivo” que seja, faz a dança da chuva na estação de seca, nem no meio de um deserto?
Isso pode ser atribuído a dois motivos: primeiro, porque a dança é parte de um ritual de fertilidade do solo, e ninguém é louco de esperar solo fértil em plena seca ou no coração do Saara. Segundo, porque nenhum xamã (pajé, curandeiro, sacerdote, sábio, etc.) vai querer pôr a própria reputação em risco. Todo mundo sabe, afinal, que é na estação das chuvas que chove!
Um dos efeitos dessa aplicação diligente de marketing pessoal por parte dos feiticeiros tribais é uma alta taxa de correlação entre dança da chuva e, claro, a chuva: na esmagadora maioria das vezes, horas ou dias depois da dança, chove. Você pode experimentar: saia pulando e agitando guizos pela rua em fevereiro e, depois, gabe-se de ter enchido os reservatórios das hidrelétricas.
Nem toda superstição tem uma correlação tão forte com o evento que pretende causar (ou evitar), no entanto: muitas vezes, a conexão está mais na cabeça do supersticioso – se ver um gato preto dá azar, qualquer coisa ruim que acontecer a alguém depois da passagem do bichano será atribuída a ele.
Para se distrair no fim de semana, dê uma olhada nesta base de dados de superstições e tente imaginar que tipo de "evidência" alimenta essas crenças. É um exercício e tanto.
Isso pode ser atribuído a dois motivos: primeiro, porque a dança é parte de um ritual de fertilidade do solo, e ninguém é louco de esperar solo fértil em plena seca ou no coração do Saara. Segundo, porque nenhum xamã (pajé, curandeiro, sacerdote, sábio, etc.) vai querer pôr a própria reputação em risco. Todo mundo sabe, afinal, que é na estação das chuvas que chove!
Um dos efeitos dessa aplicação diligente de marketing pessoal por parte dos feiticeiros tribais é uma alta taxa de correlação entre dança da chuva e, claro, a chuva: na esmagadora maioria das vezes, horas ou dias depois da dança, chove. Você pode experimentar: saia pulando e agitando guizos pela rua em fevereiro e, depois, gabe-se de ter enchido os reservatórios das hidrelétricas.
Nem toda superstição tem uma correlação tão forte com o evento que pretende causar (ou evitar), no entanto: muitas vezes, a conexão está mais na cabeça do supersticioso – se ver um gato preto dá azar, qualquer coisa ruim que acontecer a alguém depois da passagem do bichano será atribuída a ele.
Para se distrair no fim de semana, dê uma olhada nesta base de dados de superstições e tente imaginar que tipo de "evidência" alimenta essas crenças. É um exercício e tanto.
quinta-feira, 6 de março de 2008
O homem do Vaticano
Imagine se se descobre que um país estrangeiro fez lobby para a indicação de um ministro do Supremo Tribunal Federal -- pior ainda, imagine se se descobre que o lobby foi bem-sucedido.
Se o país estrangeiro for os EUA, a Argentina ou a Namíbia, seria um escândalo institucional capaz de derrubar o governo, com hordas nacionalistas em passeata pelas ruas, discursos inflamados do Congresso e editoriais virulentos na mídia.
Como é o Vaticano, fica tudo por isso mesmo.
Se o país estrangeiro for os EUA, a Argentina ou a Namíbia, seria um escândalo institucional capaz de derrubar o governo, com hordas nacionalistas em passeata pelas ruas, discursos inflamados do Congresso e editoriais virulentos na mídia.
Como é o Vaticano, fica tudo por isso mesmo.
quarta-feira, 5 de março de 2008
Um pouco de ficção edificante
Os chamados gêneros fantásticos (ficção científica, fantasia, o chamado "fantástico literário" de Borges e Poe, etc.) são uma forma literária cultivada por apologistas religiosos de vários timbres e persuasões.
No caso da fantasia isso até não surpreende tanto -- uma pessoa disposta a organizar sua vida em torno de poemas épicos da Idade do Bronze cedo ou tarde deve sentir a tentação de criar os próprios, como JRR Tolkien fez em "O Senhor dos Anéis" -- mas a ficção científica também é um campo fértil para investidas do tipo. O que, para mim ao menos, sempre foi meio surpreendente.
Essa apropriação da fc pelo proselitismo costuma ter uma forma muito clara: ao final da narrativa, os orgulhosos cientistas vêem como os humildes padres/sacerdotes/profetas é que estavam mesmo certos, e acabam mortos, loucos ou submetem-se de bom grado a alguma forma abjeta de conversão. Talvez o melhor exemplo dessa tendência seja o ótimo (ei, qualidade independe de ideologia) "Um Cântico para Leibowitz", de Walter M. Miller Jr.
Mas, claro, a cada ação corresponde uma reação, se me permitem tirar as leis de Newton de contexto por um momento. O fantástico conto The Streets of Ashkelon de Harry Harrison, sobre um padre que tenta leavr a palavra de Cristo a uma comunidade de ETs, talvez seja o manifesto de ateísmo mais forte e conciso já escrito, e há alguns anos foi publicada nos EUA a antologia Galileo's Children, uma poderosa coletânea de histórias que põem a superstição (e a religião) no devido lugar.
Isso, em termos internacionais. A ficção científica brasileira, infelizmente, ainda é muito permeada pelo tipo de "moral da história" em que tradição/sentimento/misticismo dão de dez a zero na fria racionalidade.
Felizmente, há sinais de que esse negócio está dando no saco. Um exemplo que deixo aqui é o conto Cardeais em Órbita, publicado no suplemento online Palavra do Le Monde Diplomatique brasileiro.
Espero que, depois deste exemplo, surjam outros!
No caso da fantasia isso até não surpreende tanto -- uma pessoa disposta a organizar sua vida em torno de poemas épicos da Idade do Bronze cedo ou tarde deve sentir a tentação de criar os próprios, como JRR Tolkien fez em "O Senhor dos Anéis" -- mas a ficção científica também é um campo fértil para investidas do tipo. O que, para mim ao menos, sempre foi meio surpreendente.
Essa apropriação da fc pelo proselitismo costuma ter uma forma muito clara: ao final da narrativa, os orgulhosos cientistas vêem como os humildes padres/sacerdotes/profetas é que estavam mesmo certos, e acabam mortos, loucos ou submetem-se de bom grado a alguma forma abjeta de conversão. Talvez o melhor exemplo dessa tendência seja o ótimo (ei, qualidade independe de ideologia) "Um Cântico para Leibowitz", de Walter M. Miller Jr.
Mas, claro, a cada ação corresponde uma reação, se me permitem tirar as leis de Newton de contexto por um momento. O fantástico conto The Streets of Ashkelon de Harry Harrison, sobre um padre que tenta leavr a palavra de Cristo a uma comunidade de ETs, talvez seja o manifesto de ateísmo mais forte e conciso já escrito, e há alguns anos foi publicada nos EUA a antologia Galileo's Children, uma poderosa coletânea de histórias que põem a superstição (e a religião) no devido lugar.
Isso, em termos internacionais. A ficção científica brasileira, infelizmente, ainda é muito permeada pelo tipo de "moral da história" em que tradição/sentimento/misticismo dão de dez a zero na fria racionalidade.
Felizmente, há sinais de que esse negócio está dando no saco. Um exemplo que deixo aqui é o conto Cardeais em Órbita, publicado no suplemento online Palavra do Le Monde Diplomatique brasileiro.
Espero que, depois deste exemplo, surjam outros!
terça-feira, 4 de março de 2008
O fetiche do sofrimento
Religiões em geral, e o cristianismo em particular, com sua ênfase em sacrifício e a assimilação do estoicismo helênico pelos pais da igreja, cumprem uma função histórica de conciliar duas emoções antagônicas do ser humano -- a sensação de impotência perante o sofrimento e a fome de relevância pessoal desencadeada pelo narcisismo.
Essa conciliação se dá quando se empresta ao sofrimento um sentido: nenhuma dor é gratuita; sofrer é bom para você; sua penúria será recompensada no além; a tragédia faz parte de um plano cósmico.
Não devemos nos apressar em condenar esse tipo de placebo psicológico. Afinal, durante milênios, tratou-se do único analgésico disponível.
Mas, com o surgimento dos antibióticos, da anestesia, da psicologia e psiquiatria, a situação tornou-se insustentável. A religião se transformou numa espécie de repartição pública sem função, lutando furiosamente para não ser fechada na próxima reestruturação do serviço.
Os pastores protestantes que atribuíram terremotos e incêndios à disseminação de vacinas e pára-raios estavam, ao menos, sendo coerentes: o cristianismo é, ao fim e ao cabo, o culto de um deus sádico, que cria seres imperfeitos apenas para obrigá-los a sofrer a fim de expiar pecados que não tinham como evitar cometer.
Daí, não há nada de surpreendente na evidente crueldade da oposição religiosa aos estudos com células-tronco embrionárias, mesmo se feitos a partir de embriões congelados e já inviáveis.
O dia em que o mundo não for mais um vale de lágrimas, o crsitianismo estará emparedado.
Essa conciliação se dá quando se empresta ao sofrimento um sentido: nenhuma dor é gratuita; sofrer é bom para você; sua penúria será recompensada no além; a tragédia faz parte de um plano cósmico.
Não devemos nos apressar em condenar esse tipo de placebo psicológico. Afinal, durante milênios, tratou-se do único analgésico disponível.
Mas, com o surgimento dos antibióticos, da anestesia, da psicologia e psiquiatria, a situação tornou-se insustentável. A religião se transformou numa espécie de repartição pública sem função, lutando furiosamente para não ser fechada na próxima reestruturação do serviço.
Os pastores protestantes que atribuíram terremotos e incêndios à disseminação de vacinas e pára-raios estavam, ao menos, sendo coerentes: o cristianismo é, ao fim e ao cabo, o culto de um deus sádico, que cria seres imperfeitos apenas para obrigá-los a sofrer a fim de expiar pecados que não tinham como evitar cometer.
Daí, não há nada de surpreendente na evidente crueldade da oposição religiosa aos estudos com células-tronco embrionárias, mesmo se feitos a partir de embriões congelados e já inviáveis.
O dia em que o mundo não for mais um vale de lágrimas, o crsitianismo estará emparedado.
sábado, 1 de março de 2008
Células-tronco, o tira-teima
Agora em março, o Supremo Tribunal Federal deve julgar um Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) contra a liberação - limitadíssima - do uso de embriões humanos em pesquisas com células-tronco.
Acho que já fiz uma quantidade razoável de "rants" por aqui quanto à estultice intrínseca da idéia de que um óvulo fertilizado deveria ter qualquer tipo de "direito". Uma outra postagem minha sobre bioética é esta qui.
Destaco, apenas, dois pontos: primeiro, que a Adin foi proposta, em 2005, pelo então procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, um católico fervoroso. E depois dizem que foram os petistas que inventaram o aparelhamento do Estado. O tempora, o mores...
Segundo, a corajosa resistência do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, ao avanço da onda obscurantista. Este é um típico caso do ministro ser um homem público de estatura muito mais elevada - e de vértebras muito mais firmes - que o presidente a que serve.
Por fim, deixo aqui links para três documentos interessantes sobre o assunto, os dois primeiros extraídos dos anais do Conselho Presidencial de Bioética dos EUA. Um deles é um relatório, Monitoring Stem Cell Research, que resume os pontos do debate. O outro é o depoimento do geneticista John Opitz perante esse mesmo conselho, que traz uma descrição fantástica do desenvolvimento embrionário. Em último lugar, um ótimo reductio ad absurdum do verniz de "verdade científica incontestável" que a igreja católica tenta dar a seus dogmas nesta questão.
Acho que já fiz uma quantidade razoável de "rants" por aqui quanto à estultice intrínseca da idéia de que um óvulo fertilizado deveria ter qualquer tipo de "direito". Uma outra postagem minha sobre bioética é esta qui.
Destaco, apenas, dois pontos: primeiro, que a Adin foi proposta, em 2005, pelo então procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, um católico fervoroso. E depois dizem que foram os petistas que inventaram o aparelhamento do Estado. O tempora, o mores...
Segundo, a corajosa resistência do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, ao avanço da onda obscurantista. Este é um típico caso do ministro ser um homem público de estatura muito mais elevada - e de vértebras muito mais firmes - que o presidente a que serve.
Por fim, deixo aqui links para três documentos interessantes sobre o assunto, os dois primeiros extraídos dos anais do Conselho Presidencial de Bioética dos EUA. Um deles é um relatório, Monitoring Stem Cell Research, que resume os pontos do debate. O outro é o depoimento do geneticista John Opitz perante esse mesmo conselho, que traz uma descrição fantástica do desenvolvimento embrionário. Em último lugar, um ótimo reductio ad absurdum do verniz de "verdade científica incontestável" que a igreja católica tenta dar a seus dogmas nesta questão.
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