segunda-feira, 30 de junho de 2008

Viva a evolução!

Nesta terça-feira faz 150 anos que Charles Darwin e Alfred Russell Wallace apresentaram a primeira comunicação científica da teoria da evolução das espécies or meio da seleção natural.

Nos 150 anos que se seguiram à apresentação, a teoria gestada por ambos e desenvolvida, em sua forma mais bem acabada, por Darwin só fez acumular evidências a seu favor, seja por meio do surgimento de bactérias resistentes a antibióticos, seja por meio do registro fóssil e, principalmente, por meio do maior teste a que uma teoria científica pode passar: o de se mostrar compatível com (e, mais importante, capaz de explicar) fatos que ainda eram desconhecidos quando de sua formulação -- no caso da evolução, esses fatos são, principalmente, a existência e o funcionamento do código genético.

(Compare isso com a teologia e todos os fatos novos que ela nunca foi capaz de prever ou explicar -- do valor de pi à estrutura do sistema solar e à própria evolução).

É provável que a evolução repouse, hoje, sobre uma base de evidências mais sólida do que, digamos, a existência de buracos negros. Curiosamente, não se vêem negacionsitas da Relatividade Geral tentando convencer escolas a ensinar "explicações alternativas" para as explosões cósmicas de raios gama.

Por que será?

domingo, 29 de junho de 2008

James Randi faz palestra no Google



O grande showman do ceticismo não deixa a peteca cair, mesmo depois de uma ponte de safena.

Terapias alternativas e Dunga

Não entendo lhufas de futebol, mas arriscarei uma previsão: a seleção brasileira voltará ganhar em breve, quer continue ou não sob o comando de Dunga. Por quê? Por causa de um fenômeno estatístico conhecido como regressão para a média.

O exemplo mais conhecido da regressão talvez seja o do instrutor de vôo que acredita piamente que xingar um piloto que faz uma manobra muito ruim sempre leva a uma melhora de performance, enquanto que elogiar um piloto que faz uma manobra brilhante não tem efeito nenhum.

Por que o instrutor acredita nisso? Experiência: o piloto xingado melhora, o elogiado não volta a repetir o brilhantismo. A verdade, no entanto, é que ambs os pilotos provavelmente têm um nível médio de desempenho, que pode até melhorar ou piorar, dependenmdo da aplicação de cada um. Mas esses ganhos ou perdas são graduais. Manobras muito boas ou muito ruins que ocorrem sem aviso são aberrações, e a tendência é de que, no vôo seguinte, o piloto que teve a aberração negativa pareça melhorar (porque está voltando para sua média normal) e o que teve o lance genial, pareça piorar (pelo mesmo motivo).

No caso de Dunga, tomei a liberdade de montar uma planilha com os números de seus 31 jogos à frente da seleção, e tenho o prazer de informar que o resuldao dos três últimos (duas derrotas e um empate de zero a zero) estão um pouco abaixo de sua média: o resultado que se deve esperar, estatisticamente, do técnico é vitória por um gol de diferença (1,16 de saldo de gols médio; pontuação média, 2,13 -- mais que emparte, enfim, mas menos que vitória).

O que isso tudo tem a ver com terapias alternativas? Simples: toda pessoa tem um nível médio de saúde e bem-estar. Exceto em caso de doenças mais graves, deteriorações nesse estado tendem a retornar para média espontaneamente. Assim, tomar floral ou homeopatia é como trocar o técnico da seleção depoisde duas derrotas e um empate: pode até dar a impressão de que a vitória seguinte foi provocada pela mudança, mas...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Censura judiciária e uma nova falácia

Muito engraçada a postura da Associação dos Juízes Federais do Brasil diante da censura imposta aos veículos do Grupo Estado por um de seus pares.

Primeiro, abraça de vez o espírito de corpo, incorrendo no que batizarei de Falácia dos Três Mosqueteiros ("um por todos, todos por um"), ao tratar uma crítica a ato de um membro da categoria ("o juiz X, no caso Y, ao emitir a decisão Z, pisou na bola") como uma ameaça à instituição do Poder Judiciário como um todo.

Achei que só congressistas tinham o tipo de estofo intelectual necessário para achar que esse raciocínio torto poderia ser levado a sério.

Segundo, os meritíssimos se saem com essa: ''É imprescindível que a magistratura seja forte e respeitada. Se for diferente, ao cidadão não haverá nenhum tipo de recurso contra o arbítrio do Estado ou a violência de seu semelhante.''

Esqueceram-se, por acaso, que "a magistratura" é também parte do aparato do Estado, e tão propensa a cometer arbítrios quanto seus parceiros dos demais Poderes?

Ora, ora, ora.

Bill Gates faz mais bem que a Igreja Católica

O fundador da Microsoft, Bill Gates, um agnóstico e provável ateu, anunciou sua aposentadora do mundo dos negócios para dedicar-se à Fundação Bill e Melinda Gates, criada originalmente com uma dotação de US$ 126 milhões e que hoje conta com um capital, para aplicação em projetos filantrópicos, de quase US$ 40 bilhões. Tem cerca de 500 funcionários, ou seja, um nível de eficiência de US$ 80.000.000/funcionário. A fundação segue padrões internacionais de transparência na aplicação de seus fundos.

Já o Óbolo de Pedro, um fundo formado por doações de caridade feitas diretamente ao papa por fiéis católicos, somou US$ 102 milhões em 2006, o que foi saudado como um acréscimo surpreendente. A Igreja Católica tem cerca de 400.000 sacerdotes ordenados, o que dá uma eficiência de uS$ 255/funcionário. Não segue nenhum padrão de transparência conhecido (nem é preciso lembrar do Banco Ambrosiano: tente pedir ao padre da sua paróquia para ver um balanço detalhado).

A comparação entre o Óbolo de Pedro e a dotação da Fundação Bill e Melinda Gates pode parecer injusta, já que a Igreja Católica recebe doações de forma descentralizada, muitas destinadas a dioceses específicas, e mantém uma organização internacional de caridade, a Caritas Internationalis, mas tente você descobrir quanto dinheiro isso tudo mobiliza. Desejo-lhe muito boa sorte.

Mas vamos fazer umas estimativas: a renda per capita anual dos EUA é US$ 44 mil; a do Burundi, US$ 100. A renda per capita média mundial deve estar entre esses dois valores. Tirando a média geométrica, dá uns US$ 2000. Já que há um bilhão de católicos no mundo, a renda global do catolicismo deve ser US$ 2.000 bilhões, ou US$ 2 trilhões (uau! isso empata com o PIB da Itália). Supondo que 10% dos católicos paguem o dízimo (10% da renda pessoal), a arrecadação global anual da Santa Madre Igreja deve ser de uns US$ 20 bilhões. Criada em 2000, a Fundação Gates acumulou uma dotação de US$ 40 bilhões até agora, ou US$ 5 bilhões ao ano. Por 500 funcionários, dá US$ 10 milhões/funcionário/ano. Já os US$ 20 bilhões anuais dos católicos, divididos por 400.000 padres, dá US$ 50.000/padre/ano. Ainda fica abaixo do nível de eficiência da fundação do casal Gates.

(Seria melhor medir eficiência por número de pessoas antendidas satisfatoriamente, mas essa estimativa fica para outra postagem.)

Numa nota paralela, a hieraquia católica nos EUA desembolsou US$ 1 bilhão para cobrir os danos do abuso sexual cometido por padres. Da onde se conclui que, (a) eles tinham o dinheiro e (b) o tal do dinheiro não estava sendo usado para socorrer os necessitados (a menos que se enquadrem bispos ameaçados de ir para xilindró por cumplicidade com pedófilos na categoria "necessitado").

Dawkins: ateus, saiam do armário!

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Jornalismo e medicina

A cobertura de temas médicos nos jornais poderia ir um pouco mais fundo em certos assuntos. Um exemplo é esta reportagem de O Estado de S. Paulo sobre o uso de acupuntura para alívio dos sintomas negativos da quimioterapia: ficamos, por exemplo, sem saber se foram usados controles, como a chamada "falsa acupuntura" -- em que as agulhas não penetram o corpo do paciente, ou são aplicadas em pontos aleatórios.

Sem esse tipo de controle, é impossível saber se a acupuntura funcionou mesmo ou se se trataou apenas de efeito placebo.

Embora o médico entrevistado ofereça uma explicação naturalista para o efeito detectado -- "Provavelmente os estímulos ou a pressão nos pontos liberam substâncias neuroquímicas, que tornam não-sensível a zona gatilho do quimioreceptor no cérebro, prevenindo esses efeitos colaterais" -- a reportagem, do modo como foi publicada, acabará dando munição para os bons e velhos papos de "meridianos de energia" ou "força Qi".

Lei Seca

A proibição draconiana do consumo de álcool antes de dirigir é o tipo de lei que, de tão severa, já nasce desmoralizada, e ainda gera o risco de jogar uma boa causa no descrédito, por conta do exagero e do ridículo.

Primeiro, porque num país onde quem quer dirige até sem carteira de motorista, sem documento do carro e comete barbaridades à vontade -- exceto excesso de velocidade e passar sinal vermelho, porque aí tem radar automático -- alguém realmente acredita que haverá fiscalização eficiente para impor a nova norma?

Claro que o motorista que se envolver em acidentes ou que praticar direção perigosa sob os efeitos do álcool deve ser punido de modo severo, com cadeia, até; claro que estar alcoolizado deve ser um agravante na pena imposta nesses casos. Até acho que lesão ou morte provocadas por condutor embriagado têm mesmo de ser tratadas como crime doloso.

Mas uma coisa é punir o dano efetivamente provocado; outra, ameaçar (em vão) punir a possibilidade do dano.

E aí chegamos ao meu segundo ponto: será que a correlação entre álcool e mortes no trânsito justifica a medida? Andei fazendo umas contas...

De acordo com dados do segundo semestre do ano passado, o Brasil acumulava 254 mil mortes no trânsito em oito anos, o que dá uma média de 32 mil mortes ao ano (supondo que morram cerca de 3 milhões de brasileiros a cada ano - 1/71 avos da população, proporção que tirei da atual expectativa de vida do brasileiro - o trânsito responde por 1% do total de mortes).

Já de acordo com o sindicato dos fabricantes de cerveja, o consumo basileiro anual é de 47 litros per capita. Sendo a população brasileira de cerca de 200 milhões, isso dá por volta de de 10 bilhões de litros.

Dividindo o número de mortes pelo de litros de cerveja consumidos, a razão é (valei-me, calculadora do Windows!) de 0,0000032 morte por litro. Ou, uma morte a cada 32o.000 litros de cerveja consumidos.

Falando assim, parece que não tem nada uma coisa a ver com a outra. Mas é claro que esse número não faz lá muito sentido: trata-se de uma média ampla demais. Mas, aí está: a lei também é ampla demais.

Olhando por outro ângulo: o Ministério da Saúde estima que 290 mil motoristas alcoolizados saiam às ruas todos os dias (alcoolizados mesmo, não gente que tomou meio chope duas horas atrás). Num ano, isso totaliza 100 milhões. A 32 mil mortes ao ano, é 0,00032 morte por bebum, ou um motorista embriagado para cada 3 mil mortes. Ou ainda, a chance de um bêbado ao volante acabar matando alguém é de 0,o3%.

Pode não parecer muito, mas é uma morte a cada 30.000 viagens de automóvel feitas por gente bêbada. Voltando ao número anterior de 290 mil bêbados ao volante a cada dia, isso são dez mortes diárias causadas por motoristas embriagados. Repito: Dez ao dia.

Ou ainda: supondo que três amigos saiam bêbados do happy hour todo dia e guiem para casa, 300 dias por ano (descontando férias e finais de semana), isso garante que, em 30 anos de carreira, um deles acabará tirando pelo menos uma vida.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

RIP George Carlin

QI alto leva ao ateísmo!

Peralá, não é bem assim: uma pesquisa que compara nível de religiosidade com o QI médio de vários países conclui que há uma correlação entre baixa crença em Deus e altainteligência média da população.

O que se conclui disso? Muito pouco, acho.

Por mais que seja um resultado divertido e um fait divers interessante para mencionar na happy-hour e ajudar a conquistar gatinhas(os) -- se você e a gatinha forem ateus, claro -- aqui cabem todos os caveats usuais: correlação não é causação, pesquisas que usam médias amplas não dizem nada sobre casos individuais, e ninguém sabe lá muito bem o que próprio teste de QI está medindo, afinal. Somando-se a tudo isso, vem o fato de que o principal autor do estudo, Richard Lynn, é uma figura um tanto quanto polêmica.

Mas esse comentário me parece perto do alvo:

De acordo com o professor de psicologia da London School of Economics, Andy Wells, vários estudos já demonstraram que pessoas com níveis de QI altos tendem a ter níveis de educação mais altos. "E quanto mais educação as pessoas têm, é mais provável que elas tenham acesso a teorias alternativas de criação do mundo, por exemplo", afirma Wells.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Os leigos sao melhores que seus líderes

(Uma distinção inicial: "leigo" é o membro de uma religião que não faz parte da hierarquia, como um cidadãos católico, em oposição a um padre ou bispo. Não se deve confundir "leigo" com "laico"...)

Feito o alerta, a boa notícia: a maioria dos cidadãos dos EUA acredita que não existe um único caminho para a salvação. Em outras palavras, na opinião da maior parte da população da maior potência da Terra, nenhuma religião é essencialmente mais verdadeira que outra. Os dados são da Pesquisa Pew.

(Será que um dia vão concluir que todas são igualmente falsas? Ah, esperança...)

O que há de interessante nesses dados é o fato de que essa crença contradiz tudo o que as hierarquias religiosas pregam ou, nas palavras de Jesus: "Ninguém vem ao Pai senão por mim". A questão de qual o "verdadeiro caminho", aliás, é a principal pedra no sapato das igrejas protestantes no que diz respeito à igreja católica, que insiste em se arrogar como a única igreja cristã de verdade.

A questão, aqui, é que como já argumentei antes, igrejas são levadas, por pressão evolutiva, a se tornar psicopatas: religiões que não desprezam virulentamente as outras acabam desaparecendo. Vejam o caso do zoroastrismo, a fé dualista primitiva da Pérsia e provável fonte de todos os monoteísmos atuais.

Trata-se de uma religião que, em sua forma atual, basicamente só pede que as pessoas sejam decentes umas com as outras. Ponto. Não prega nenhum tipo de xenofobia (como nas clássicas, e sangrentas, oposições de cristão/pagão, judeus/góim, muçulmano/infiel) e diz que está tudo bem se o fiel mudar de crença -- desde que, no geral, continue a ser uma pessoa decente.

De acordo com a reportagem do New York Times que pode ser acessada no link dois parágrafos acima, essa postura de abertura e tolerância está levando a crença à extinção.

A questão que fica, obviamente, é como alguém pode continuar a ser membro de uma religião mesmo depois de abandonar um princípio tão básico quanto a reivindicação do monopólio da verdade. Imagino que pressão de grupo, conformismo, preferência estética e força do hábito tenham algo a ver com isso. E dissonância cognitiva -- que será assunto de uma postagem futura.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

A marca da fé

Um professor criacionista nos EUA resolveu marcar seus alunos com a cruz. Teve gente que ficou escandalizada com isso. Por quê? Ele apenas estava, bolas, seguindo a parábola do Bom Pastor e cuidando do "rebanho"...

(Ok, a marca feita pelo professor era temporária, mas não pude perder a piada, sorry).






sexta-feira, 20 de junho de 2008

Papa quer ir à Terra Santa. Por que não vai?


É incrível como têm pouca fé as pessoas que vivem da fé alheia. No Evangelho de Marcos, Jesus promete que seus seguidores terão o poder de manusear serpentes, expulsar demônios e beber veneno sem passar mal. Bolas, o que é um mero conflitozinho árabe-israelense em comparação a isso?


O pensamento me ocorre diante da notícia de que Bento XVI gostaria de visitar a Terra Santa, e das renovadas tentativas de limpar o nome de Pio XII, por conta de sua omissão perante o Holocausto (sem falar na concordata entre Berlim e o Vaticano onde, basicamente, a Igreja concordava em não falar mal de Hitler desde que pudesse continua a cobrar impostos e a doutrinar criancinhas nas escolas).


A defesa geral que se oferece de Pio XII é de que ele foi forçado pelas circunstâncias a agir dessa maneira, e que na verdade socorreu vítimas do Holocausto, embora tenha sido forçado a agir de forma extremamente discreta.


Pô, mas o cara não tem Deus do seu lado?
(A imagem ao lado é da morte de Simão Mago; para lembrar o tempo em que papas faziam milagres em público e, melhor, quando ainda vivos...)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

'Mystery Mongers'


Como todo escritor de romance policial (e telenovela!) sabe, melhor que solucionar um mistério é esticá-lo. Como estratégia em narrativas de ficção, a manobra é perfeitamente válida, mas quando vira truque jornalístico, a coisa acaba se transformando em algo tipo A Montanha dos Sete Abutres.


Veja, por exemplo, a cobertura do caso da "casa que jorra sangue", localizada num bairro com o improvável nome de Jardim Bizarro, em Jundiaí (SP).


Em vez de aguardar o laudo pericial da polícia, ou de conduzir uma investigação própria, foram correndo ouvir o Padre Quevedo. Que, claro, veio com as pataquadas de sempre sobre "telergia" - embora também tenha oferecido uma explicação alternativa que, sendo um pouco mais plausível, foi devidamente jogada, pelo jornalista, para o rodapé da história.


Resumindo: houve um tempo em que jornalistas buscavam descobrir, e retratar, a verdade. Hoje, parecem se satisfazer em fazer onda pra vender jornal.

domingo, 15 de junho de 2008

Igreja quer mandar no governo, não ser o governo


Da agência de notícias Reuters, via Portal Estadão: A Igreja Católica tem um papel vital em formar políticas sociais, mas não quer usurpar as autoridades seculares, disse neste sábado o papa Bento XVI.


E mais adiante, na mesma nota:

Um dia pós passear pelos Jardins do Vaticano com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, com quem se alinha em muitos assuntos morais, o papa disse que a Igreja tinha o papel de "apoiar (os governos) em seu trabalho e sempre propor cooperar com eles para o bem de todos".


Não vou nem entrar no mérito de discutir o que diabo (ops!) Sua Santidade entende como "o bem de todos" (condenar homossexuais a uma vida de castidade forçada, por exemplo?), mas alguém aí se lembra da Inquisição? Naquela época a Igreja também não governava, apenas aconselhava: quem queimava as bruxas na estaca era o "braço temporal", i.e., "as autoridades seculares".

Deesculpe, moço, mas esse tipo de apoio a gente dispensa.

Toda crença merece respeito...

Vamos começar, então, com essa aqui: curandeiros da Tanzânia acreditam que pedaços do corpo de albinos têm propriedades mágicas. O que está levando a assassinatos em série de albinos africanos. "Trata-se de uma crueladade sem sentido", disse o presidente da Tanzânia, Jakaya Kikwete.

O outro lado da mesma - hedionda - moeda são as ondas de histeria de caça às bruxas que sacodem a África de tempos em tempos e que atingiram novos picosde crueldade com a chegada o continente de, adivinhe só, pastores evangélicos.

É preciso notar, porém, que a idéia de linchar "feiticeiros" ou "suspeitos de feitiçaria" não é uma inovação cristã imposta aos povos africanos pelo imperialismo das crendices ocidentais. A África do Sul, por exemplo, conta com uma rica tradição pagã de farejadoras de bruxas.

Esse tipo de coisa torna difícil saber o que é pior quando dois sistemas de irracionalidade se encontram: se ochoque, que pode levar a guerras religiosas, ou se a assimiliação e o reforço mútuo, que desemboca me coisas como pastores matando criancinhas na Nigéria ou ao papel de prelados católicos nos masacres de Ruanda.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Interpretando a Bíblia

Olha que fofura: bispos católicos preocupados com interpretações literais da Bíblia. Isso é uma coisa que sempre me pareceu meio engraçada; digo, quando Jesus faz, no que para qualquer leitor um pouco mais ajuizado parece uma metáfora, comparando o pão à sua carne, a Igreja Católica vem e diz que não, ele estava falando ao pé da letra e instituindo um importante ritual de canibalismo.

Já quando, no Velho Testamento, o nosso amigo IHWH, o pai do homem, aparece, em pessoa, mandando rei Saul cometer genocídio contra os amalecitas, isso tem de ser entendido no contexto da época, requer interpretação, pô, peraí, não é bem assim.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Elaborando um pouco o post de ontem...

A impressão é a de que pessoas são capazes de fazer sacrifícios, mas as instituições que as pessoas criam, não. Um exemplo óbvio que me ocorre é o do comportamento de diversos católicos durante a 2ª Guerra Mundial, que correram riscos para salvar vítimas do nazismo, em oposição à atitude, abjetamente invertebrada, da Igreja.

Mas essa dicotomia não é só católicos/catolicismo. Ela aparece em diversos contextos e em diversos lugares: indivíduos morrem para não trair seus princípios. Instituições - igrejas, Estados, empresas, fundações, partidos, etc. - criadas para defender princípios preferem vê-los morrer a deixar de existir.

Suponho que haja uma razão darwiniana para isso. Digo, ums instituição disposta a dar a "vida" por uma causa cedo ou tarde acaba dando mesmo, enquanto outra, disposta a fazer tudo para continuar existindo, continua existindo.

Da onde se conclui que a instituição mais eficiente de todas é a que tem por objetivo a própria perpetuação. Isso é memética, por acaso?

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Instituições psicopatas?


Terminei de ler The Corportaion, do professor de Direito Joel Balkan, uma defesa - muito boa, do meu ponto de vista - da idéia de que corporações são o equivalente jurídico de psicopatas: criaturas programadas para defender a própria sobrevivência e a satisfação de suas necessidades imediatas, e f*da-se o resto.

Diferente de psicopatas, diz o argumento, pessoas saudáveis têm a consciência de que seres humanos merecem dignidade e respeito, e portanto as ditas pessoas saudáveis sabem que é preciso ceder de vez em quando, ou abrir mão de uma vantagem que, mesmo sendo legal, poderia causar sofrimento ao próximo.

Pessos normais também são capazes de dizer "isso é errado", em vez de simplesmente calcular qual a probabilidade de serem pegas com a boca na botija.

Já empresas são construídas de modo a não ter escrúpulos além do cálculo de dividendos. Isso não é culpa delas, da mesma forma que uma aranha não é culpada por lançar ácidos digestivos sobre uma mosca ainda viva: só acontece que elas são projetadas desse jeito.

A maior crítica que posso fazer a Bakan é a de que, uma vez tendo estabelecido o caso pela deformação moral da entidade corporativa, o autor passa a promover o Estado como remédio para o problema. Como se governos (e partidos políticos!) também não fossem psicopatas, ainda que de outro tipo.

Alguém deveria, aliás, escrever uma análise do tipo a respeito das igrejas. Se as grandes corporações são Norman Bates, aposto que nenhuma religião deve ficar muito atrás de Hannibal Lecter.

sábado, 7 de junho de 2008

Igrejas 'só para entretenimento'

Já comentei aqui (em minha postagem anterior, para ser exato) o ótimo livro de Paul Boghossian sobre relativismo cultural. Uma das constatações mais brilhantes (porque terrivelmente óbvia) do livro é a de que todo o papo sobre "novas formas de saber" é incoerente porque, no fim, todo ser humano se vale das mesmas três ferramentas básicas para construir conhecimentos: observação, indução e dedução.

O ponto me ocorre quando leio uma nota curiosa no Times de Londres, onde o articulista Matthew Parris critica a nova lei britânica contra charlatanismo porque ela também poderia, no final das contas, se aplicar a igrejas e cultos religiosos. Essa lei requer que fornecedores de produtos e serviços que não tenham comprovação científica avisem os clientes que os ditos prdutos e serviços são "só para entretenimento".

Parris acha isso, a possível aplicação às religiões, ruim. Eu, pessoalmente, acho que isso só prova que a lei foi bem planejada e deveria ser adotada no resto do mundo. Vamos lá. Observação, dedução, indução: qual a diferença entre um "trabalho" feito por uma cartomante, uma sessão de descarrego e uma reza de terço bizantino?

O preço.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Relativismo radical

Muito, muito bom o Fear of Knowledge, de Paul Boghossian. Trata-se de um livro magrinho em que o filósofo se dedica a desmontar a tese de Richard Rorty, de que a realidade não é "representacionalmente independente" -- isto é, de que não faz sentido falar em como as coisas "realmente são", que só é possível falar em "como as coisas sao dentro de um determinado esquema de representação".

Boghossian constrói meticulosamente o caso de que se não houver uma realidade "real", cognoscível, na qual ancorar o conceito de "esquema de representação", a proposta de Rorty é inviável: seria preciso ter um esquema de representação para representar o esquema de representção que representa o esquema de representção no qual há um esquema de representação que... (etc, etc, etc)... segundo o qual as coisas são de tal jeito.

A filosofia brasileira está mais ligada à chamada tradição européia "continental", que tende a valorizar mais a retórica, o princípio de autoridade (Marx disse, Hegel disse, Fucault disse, Lacan disse...) e o politicamente correto que o jogo de argumentos. O que é uma pena: a tradição analítica, à qual Boghossian se filia, é muito mais rica e satisfatória, em minha humilde opinião de ignorante interessado.

domingo, 1 de junho de 2008

Tu quoque, Lula

Alguém poderia, por favor, pedir pro Lula calar a boca? Óquei, sei que esse apelo já deve ter sido feito milhares de vezes antes, e por fontes muito mais credenciadas que este modesto blog, com suas míseras 500 visitas mensais (poucas, mas de qualidade, apresso-me em dizer) mas é que o presidente anda abusando muito de sua falácia favorita, tu quoque, ou, você também ou, ainda, a falácia da autoridade moral: a idéia de que quem comete um erro não pode apontá-lo nos outros.

Essa bobagem vem, como muitas outras, dos Evangelhos. No caso, o episódio da lapidação da mulher adúltera. Abre parêntese: curioso notar que em nenhum momento Jesus questiona a barbárie de se condenar uma mulher à morte, sob tortura, apenas por ter usado próprio corpo como quis... Fecha parêntese.

Assim como no precedente bíblico, a falácia lulista (que já tinha virado a favorita do Planalto no tempo do mensalão) confunde o fato em si com sua fonte. Ora, ou a mulher cometeu adultério, ou não; ou a lei mosaica exige o apedrejamento, ou não; no caso mais recente de invocação por S. Excia., ou o Brasil está irresponsavelmente reduzindo sua biodiversidade a pó de traque, ou não.

Quem faz a denúncia é muito pouco relevante. O que conta, ou deveria contar, são as evidências apresentadas.

Mas deve ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um político resolver discutir algo com base na evidência...

'Free speech' vs 'Hate speech'

A polêmica sobre se as igrejas cristãs fundamentalistas deveriam ser proibidas de pregar contra o homossexualismo traz à tona uma série de problemas, que vão desde a revisão politicamente correta de textos clássicos (ei, o Levítico diz que homem com homem é "abominação aos olhos do Senhor", algo tão pecaminoso quanto, por exemplo, comer ostras), até as questões de liberdade de culto, de pensamento e de expressão.

Como (quase) sempre, no entato, o dilema chega aqui depois de já ter sido debatido à exaustão lá fora: a formulação em inglês é "free speech does not include hate speech" ("liberdade de expressão não inclui a liberdade de expressar o ódio"). Mas será que não, mesmo?

Digo, dar às pessoas de quem discordamos o direito de falar é o preço que pagamos pelo nosso direito de falar. Se liberdade de expressão for só a liberdade de quem concorda comigo, trata-se de uma liberdade falsa. Exposta desse jeito, a questão vira ponto pacífico.

Mas, e quando chegamos às pessoas de quem discordamos radicalmente - nazistas, fascistas, homófobos, cristãos fundamentalistas, supremacistas islâmicos, judeus sionistas ultra-ortodoxos, comunistas stalinistas, produtores de poesia erótica pedófila - o direto deles deve ser preservado, também? Ou liberdade de expressão vale, sim, para quem discorda da gente, mas só para quem discorda da gente um pouquinho? Você é livre para ter seus costumes e sua cultura, mas não ponha os cotovelos na mesa, ou vamos mandá-lo comer no canil?

Pode-se argumentar que o discurso de ódio representa uma situação ultra-especial, já que é o tipo de discurso que tem conseqüências comprovadamente nefastas. A Suprema Corte dos EUA reconhece uma exceção à cláusula de liberdade de expressão da Primeira Emenda, que é a do caso de "perigo real e imediato". O exemplo clássico é o de que "a liberdade de expressão não dá a ninguém o direito de gritar 'fogo!' num teatro lotado, a menos que realmente haja fogo".

Será que o discurso de ódio traz esse tipo de perigo real e imediato? Falar contra o homossexualismo equivale a levantar um falso alarme de "fogo!" no teatro lotado da sociedade?

Eu diria que depende de como o discurso em si é formulado. Existe uma diferença entre gritar "fogo!" e consultar calmamente a pessoa na cadeira ao lado, para perguntar se ela também está sentindo cheiro de fumaça. Como existe uma diferença entre dizer que "relações homossexuais são pecaminosas à luz do capítulo 18 de Levítico" e "linchem o viadinho filho-da-puta". A segunda frase já seria crime de qualquer jeito, por se tratar de instigação direta à violência. Não precisamos de mais uma lei para punir isso.

Sempre que surgem propostas de lei para suprimir um tipo de idéia ou expressão, eu me lembro de minha infância e adolescência no Brasil dos anos 70/80, ainda durante a ditadura militar.

Acho que nunca houve tantos jovens comunistas no Brasil quanto naquela época - até eu, confesso, tive uma camiseta do Che, um pôster de Marx e sonhava com o dia em que os empresários filhos-da-puta vendidos ao imperialismo internacional acabariam no paredón. Lembro que um amigo de meu pai, um cara conservador até a medula, contrabandeou para o Brasil um exemplar em espanhol do Livro Vermelho de Mao, só de sacanagem.

Resumindo, o proibido atrai. E o ódio proibido atrai muito, muito mais. Para fechar com um clichê, a luz do sol continua a ser o melhor desinfetante.